‘É hora de escrever como nos anos 80’


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Humberto Gessinger, líder da banda Engenheiros do Hawaii, é entrevistado na recepção do Shelton Inn Hotel de Franca, onde se hospedou sábado passado quando o grupo fez show para 6 mil pessoas no Castelinho: “Este momento
Humberto Gessinger, líder da banda Engenheiros do Hawaii, é entrevistado na recepção do Shelton Inn Hotel de Franca, onde se hospedou sábado passado quando o grupo fez show para 6 mil pessoas no Castelinho: “Este momento
<p>Com os louros cabelos curtos penteados para o lado esquerdo, blusa de frio azul com detalhes pretos, calça de tecido camuflado e os inseparáveis tênis All Star, Humberto Gessinger, 43, líder do Engenheiros do Hawaii, recebeu a reportagem do Comércio no Shelton Inn no sábado passado, 21. A entrevista aconteceu por volta das 18 horas.</p> <p><br />Na mesa que fica na recepção do hotel e rodeado de alguns fãs, deixou de lado a fama de mal-humorado. Ele mesmo, em antigas entrevistas, já se definiu como “grosso e doce”, mas, nos 20 minutos com o Comércio, a parte doce imperou. </p> <p>Sete horas antes de agitar 6 mil pessoas durante o show no Castelinho, Gessinger, que está na estrada há mais de 20 anos e já gravou 18 CDs (o último álbum está saindo do forno), falou do seu “namoro” com o formato acústico, shows, instrumentos que toca, novidades do novo CD, da emoção em cantar ao lado da filha Clara e do acidente com o vôo da TAM, que partiu de Porto Alegre (RS) - onde mora - e explodiu contra um prédio ao tentar pousar em São Paulo há 12 dias. Confira o bate-papo com o vocalista, compositor e multiinstrumentista (ele toca piano, violão, viola, baixo, guitarra e gaita, entre outros). </p> <p><strong>Comércio da Franca - Vocês já fizeram vários shows aqui em Franca. Como é retornar à cidade? Tem boas lembranças daqui?<br />Humberto Gessinger</strong> - Sem dúvida. Não só daqui, mas de todo o interior de São Paulo. Depois do Rio Grande (do Sul) foi o Estado por onde mais a gente viajou. Esse momento é especial. Acho que o Acústico foi o melhor show que coloquei na estrada. Estamos numa fase de transição, trabalhando com algumas músicas do disco novo. A gente está numa relação muito boa com o próprio trabalho, o que é um lance legal. </p> <p><strong>Comércio - O Acústico foi um sucesso, tanto que vocês estão em turnê há mais de dois anos. O que mais atrai neste formato?<br />Humberto</strong> - As músicas ficam mais parecidas com a forma como elas nascem, quando estou tocando em casa. Parece que é mais direto a coisa do violão, do piano. Os garotos que estão comigo não têm uma tradição de acústico, mas a coisa acabou se encaixando de uma forma muito boa musicalmente. </p> <p><strong>Comércio - Sua filha Clara participa do novo álbum. Como é cantar ao lado dela?<br />Humberto</strong> - Fico bem nervoso (risos). É engraçado porque não era novidade, já que ela participou do Acústico MTV. Mas, eu me emocionei mais nesse. Foi até difícil segurar a onda. Talvez por cantar Parabólica, uma música que eu fiz para ela. Vê-la mais independente ainda é legal. Sempre vi os álbuns do Engenheiros como uma continuidade. Os discos Revolta dos Dândis, Ouça o que Eu Digo: Não Ouça Ninguém e Várias Variáveis é uma trilogia, até na capa a gente manteve a continuidade (elas são das cores da bandeira do RS: uma amarela, a outra vermelha e verde). E com esses dois acústicos também pensei nisso, por isso, as mesmas participações. </p> <p><strong>Comércio - A Clara tem 15 anos. Ela pensa em ser música? <br />Humberto</strong> - Ela toca piano, mas não fala em seguir isso como carreira, o que acho que é muito legal da parte dela, de não gerar expectativa. Não sei o que quer dizer música para uma menina de 15 anos hoje em dia. Certamente, é bem diferente do que era para mim. O ambiente está muito degradado. Hoje em dia, qualquer artista depende de forças muito grandes, fazer jingles, propaganda, aparecer na revista. Na minha época era mais baseado na música. Se me perguntassem se gostaria que ela fosse, não tenho predileção porque nem faço muita idéia do que seja começar uma banda hoje. Sei que é muito diferente do meu tempo. </p> <p><strong>Comércio - Quantas músicas o CD Novos Horizontes terá? O que o público pode esperar desse trabalho?<br />Humberto</strong> - São 18 canções, nove inéditas e nove regravações. Se me dessem a chance de refazer os 17 discos da banda, mudaria uma coisinha em todos. Mas esse é um disco que, pelo menos até agora, eu não sinto vontade de mudar nenhuma nota. Longe de ser perfeito. Obviamente não é. Mas é um disco que me passa a impressão de que tudo está onde deveria estar. Podem esperar um disco com o qual o artista está plenamente satisfeito com o que fez e que tem a esperança que as pessoas também se satisfaçam. </p> <p><strong>Comércio - Qual o ritmo de shows do Engenheiros? <br />Humberto</strong> - Ah, a gente toca muito. Com o Acústico fizemos quase 200 shows. Pena que com o problema do caos aéreo no País está ficando difícil viajar. Moro em Porto Alegre e o pessoal no Rio. Espero que isso se solucione para a gente conseguir um ritmo legal porque acho que a banda existe mesmo é na estrada. Cada vez mais acho que o show ao vivo é mais importante. Se tivesse de escolher entre fazer show e gravar disco, ficaria com a primeira. Acho que ali que é a vida real, que as pessoas estão respirando o mesmo ar e me fascina tocar 20 anos a mesma música e nunca ser igual. </p> <p><strong>Comércio - Aproveitando o gancho, como você vê o caos aéreo no Brasil e o acidente com o avião da TAM que matou mais de 190 pessoas (dia 17 de julho, em Congonhas, quando a aeronave tentou pousar, mas bateu num prédio e explodiu)?<br />Humberto</strong> - Do acidente é muito difícil falar. Porto Alegre não é uma cidade muito grande e a gente sempre conhece alguém que estava ali. A gente ainda está sob choque de emoção e é difícil falar racionalmente sobre isso. Sobre o caos aéreo acho que reflete vários problemas que o Brasil tem. É um País que não pensa, onde as coisas são feitas de supetão e tudo é feito para mais um dia. Isso me cansa um pouco. O Brasil tem me cansado bastante porque acho que a gente está tendo uma vida muito pior do que poderia ter. Vejo histórias de outros países que têm dificuldades de geografia, de clima, de várias coisas e conseguem superar. Parece que a gente tem essa bênção do espaço físico e tem preguiça de arrumar as coisas, estruturar, é um País onde a diferença entre rico e o pobre é muito grande e, por mais que a gente eleja candidatos diferentes, parece que ninguém está interessado em mexer nas coisas que interessam. </p> <p><strong>Comércio - Você tem férias? <br />Humberto</strong> - Não. Nunca gostei da sensação de considerar a música um emprego, com férias. É até uma atitude amadora, deveria ser mais profissional, mas nunca gostei de ver isso como trabalho. A banda está sempre viva. Não tem aquela coisa de desligar. Acho que a gente é músico 24 horas. Acho que a minha profissão é ser sensível. Não é uma coisa fácil porque a gente entra numa espiral de shows e a tendência é ligar o piloto automático, então acho que minha função é manter a sensibilidade musical viva. </p> <p><strong>Comércio - Você gosta de compor. Algum lugar o inspira mais?<br />Humberto</strong> - Teoricamente até teria, gosto muito de Gramado, uma cidade na serra no Sul, mas o que eu sinto é que quando o lugar onde se está é prazeroso, está tudo certo, não tem muita necessidade de fazer canção. As canções nascem quando você está com alguma coisa o incomodando. Eu acho que é mais fácil pintar uma música se você estiver num engarrafamento do que ao lado da pessoa da qual gosta. </p> <p><strong>Comércio - Como está a opinião dos críticos hoje em relação ao Engenheiros? <br />Humberto</strong> - Hoje em dia não tem, está tudo fragmentado, não tem mais um canal que fale: ah, esse é o jornal, a revista que está pensando a música. Nos anos 80, tinha isso e era quase um jogo de cena. Às vezes, as pessoas falavam não muito o que achavam, mas era uma espécie de diálogo que rolava. Então tinha umas bandas preferidas e o Engenheiros parece que era sempre visto com estranheza. Acho interessante e sinto falta desse diálogo, hoje em dia está tudo pulverizado, tudo muito baseado nas piadinhas, nas gracinhas. Parece que as pessoas têm um pouco de medo de falar diretamente. Está na hora de se escrever mais como se escrevia nos anos 80. </p> <p><strong>Comércio - Engenheiros e Gessinger se confundem. Da formação inicial, você é o único que continua. Como é isso para você?<br />Humberto</strong> - É. Poderia até ser considerado um trabalho-solo. Sempre fiz questão de desenvolver o material, gravar e cair na estrada com o mesmo pessoal. Nesse sentido para mim sempre é importante ter uma banda fixa e não entrar no estúdio com repertório e ficar pescando os músicos que melhor gravariam aquelas músicas. Para mim é fundamental cair na estrada com o mesmo pessoal e nesse sentido é muito banda. E no disco Novos Horizontes fica muito explícito o crescimento dos meninos que estão trabalhando comigo e o entrosamento. <br />Na verdade, uma banda não se faz por decreto: 1, 2, 3, somos uma banda, vamos bater uma foto junto, uma banda é as mentalidades musicais se moldarem. Isso está acontecendo com a gente. Tem momentos em que o trabalho é mais banda, tem momentos que é mais solo... </p>

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