A importância dos valores


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Os valores são critérios segundo os quais qualificamos ou desqualificamos as coisas; são também as razões que justificam ou motivam as nossas ações, se nos considerarmos inscritos dentro de um contexto mais amplo a que denominamos cultura. Por exemplo: na cultura islâmica, a mulher não deve exibir seu cabelo. Cobrir-se de mantos, burkas e xadors significa, entre os muçulmanos, temor e obediência ao Islã, pudicícia, fidelidade conjugal. Isso faz parte do sistema de valores desse povo, valores esses, contudo, que não se configuram do mesmo modo para os povos de outras crenças. Impensável aplicá-los aos cariocas, cultural e historicamente condicionados à mostra do corpo. Essas modificações não se vinculam apenas à geografia ou religião. São temporais. Quantas vezes você ouviu seu pai ou avô dizendo: “No meu tempo não se podia ficar grávida solteira. Quem o fizesse ficava marcada como prostituta”. Pois hoje, em termos culturais, isso não tem a relevância que tinha. Se ainda há preconceito, ele se dá muito mais em virtude de questões práticas (“essa menina vai abrir mão de sua juventude, não poderá se profissionalizar”, para ficar em alguns dos enunciados atuais). Se antes havia o tabu da virgindade, hoje há o tabu da não-virgindade, dentro da sociedade algo hipersexualizada de agora. Importante aqui é reconhecer que os valores aparecem na cultura como medidas civilizatórias, isto é, como formas que os humanos tentam encontrar para se distanciar da instância animal. Claro que entre a realização de nossos desejos e impulsos mais primitivos e a necessidade de nos refrearmos para podermos viver em sociedade, há tensões, e Freud discutiu isso em “O Mal -Estar na Civilização”, ao pensar questões relativas à relação indivíduo e sociedade. Essa obra tem como tese central a idéia de que a vida social pressupõe repressão, ou seja, tanto o desenvolvimento do indivíduo quanto o desenvolvimento da civilização só são possíveis pelo controle das pulsões primitivas, que são incompatíveis com a vida comunitária. Ainda para o psicanalista, a civilização contém duas características que incluem todo conhecimento e capacidades intelectuais e técnicas que o homem adquiriu com o objetivo de controlar as forças da natureza e extrair dela a riqueza para a satisfação das necessidades pulsionais e todos os regulamentos necessários para pacificar a luta entre os homens, ajustando suas relações. Freud reconhece que a felicidade estaria na realização dessas pulsões, mas vê sua total impossibilidade, na vida comunitária. Para vivermos em grupo, teremos de renunciar a algumas coisas. Isso em tudo na vida. Há valores que engessam o homem, outros, humanizam-no. É em defesa desses últimos que esta coluna se coloca e, sem os quais, a barbárie mostra sua faceta. O VALOR DAS PEQUENAS GENTILEZAS Dar bom-dia a alguém. Dizer obrigado. Reconhecer no outro a irmandade com o humano inscrito em ambos: o outro sou eu também. Não tratar pessoas e sentimentos como coisas descartáveis e substituíveis. Não ser alheio ao que nos rodeia. Corresponder a um convite, fazer-se, no mínimo, amável a quem lhe oferece ou pede algo. Entender o ser humano como work in progress, obra inacabada, em constante evolução (ou, às vezes, lamente-se, involução), mas nunca acabada, nunca passível de um rótulo que o aprisione ou o jogue num limbo. Não buscar a padronização, a normatização dos indivíduos: cada um é único e, por isso, especial. Levantar-se da cama todos os dias e mesmo diante das evidências em contrário, incutir em si próprio a idéia de que o humano vale a pena. Exercício constante, valores a serem passados aos nossos filhos como antídoto à violência exacerbada e à crueldade. Temos em nós, em igual medida, e Freud disse isso também, impulso de vida e impulso de morte. O que vamos escolher? NÃO DÁ PARA NÃO MENCIONAR... ... O acidente da TAM. Que além das mortes que causou, deixa ainda um saldo maior de vítimas: os familiares que ficam e sofrem a dor da perda, a indignação com o descaso (obscenos os gestos filmados pelo Jornal Nacional dos membros da assessoria de imprensa do governo diante das evidências de que a Tam seria a ‘culpada’ por falhas de manutenção). São responsáveis também e muito os políticos que assinam, que dão aquele manjado jeitinho, burlando normatizações internacionais, liberações às companhias aéreas e inchaço inaudito no tráfego ou construções de risco à beira dos aeroportos. E as companhias? Com esse número de vôos, overbooking, conexões absurdas com vistas ao maior número possível de passageiros, conseguem efetuar a inspeção minuciosa e a manutenção necessária em suas aeronaves? É óbvio que não. Isso é pulsão de morte. Crime hediondo aprovado em plenário nas Câmaras e no Congresso. É inversão de valores. Até quando? PARA PENSAR Relatório da ONU para o Desenvolvimento já em 1996 alertou para o fato de que, àquela época, ‘os 358 bilionários existentes no mundo - pessoas físicas - tinham uma renda combinada maior que o Produto Interno Bruto somado de países que abrigavam 45% da população mundial’. FRASE “O homem vive, toma partido, crê numa multiplicidade de valores, hierarquiza-os e dá assim sentido à sua existência mediante opções que ultrapassam incessantemente as fronteiras do seu conhecimento efetivo. No homem que pensa, esta questão só pode ser raciocinada, no sentido em que, para fazer a síntese entre aquilo que ele crê e aquilo que ele sabe, ele só pode utilizar uma reflexão, quer prolongando o saber, quer opondo-se a ele num esforço crítico para determinar as suas fronteiras atuais e legitimar a hierarquização dos valores que o ultrapassam. Esta síntese raciocinada entre as crenças, quaisquer que elas sejam, e as condições do saber, constitui aquilo que nós chamamos uma ‘sabedoria’’. Jean Piaget.

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