Na vida há o tempo certo para tudo. Tempo de plantar, tempo de crescer, tempo de cultivar, tempo de colher, tempo de aprender, tempo de ensinar, tempo de dormir, tempo de acordar. Há o tempo de sonhar e o tempo de ir à luta, o tempo de agir e o de esperar. Estar em sintonia com o tempo é necessário. O tempo de passagem do pedestre é de espera para o motorista, e vice-versa.
A Física ensina que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar a um só tempo. O lateral esquerdo Roberto Carlos, contra a França na Copa da Alemanha, perdeu a noção do tempo. Se era mesmo necessário abaixar-se para ajeitar as meias, bem que ele podia esperar o momento adequado.
Vamos falar de dois tempos: o de agir e de esperar.
O Governo Federal precisa ajustar-se ao tempo. Quando oposição, o hoje presidente era obcecado pelo Palácio do Planalto. Agora que lá está, esqueceu de governar. O que está esperando? Acho que se distraiu e não percebeu a abertura do sinal, que está verde desde o início de 2003. Sua inércia prejudica o país. Foi-se o tempo da campanha. É hora de trabalhar. O governo não pode ser obstáculo ao crescimento, desestímulo à iniciativa privada, entrave ao desenvolvimento. O recém-nomeado ministro Nelson Jobim, no discurso de posse, disse: “É agir ou sair”. Oxalá o Presidente da República tenha ouvido.
Passemos ao oposto, ao saber esperar. Depois da concepção, há que se aguardar nove meses para ver o mundo; em seguida, mais de um ano para começar a caminhar e falar. Tudo a seu tempo. O não saber esperar é o caminho para os casamentos que não dão certo.
Casar é a etapa que deve suceder o namoro. Os “moderninhos” me desculpem, mas é preciso voltar ao namoro à moda antiga. É quando o casal tem a oportunidade de se conhecer e concluir se tem afinidade suficiente. Se há brigas nessa fase, a probabilidade é de que no casamento haja ainda mais. Mas se durante o namoro se solidifica uma relação mútua de afeto e respeito, isso perdura após o casamento. O momento certo para romper o relacionamento é antes do casamento. O namoro é importante porque possibilita descobrir eventuais divergências, equívocos, incompatibilidades, enfim, permite o término da relação sem maiores traumas para o casal. É com o namoro que se pode fortalecer a base da união para a concretização segura do ato sério que é o matrimônio.
A fruta precisa estar no ponto para ser colhida. Para isso há que se esperar. ‘Lança no chão do planeta/ A semente de amor/ Lança e fica mais preta/ que o bom lavrador/ Com o sol se levanta/ E com a lua da noite se deita/ Lança que o bom lavrador/ Não apressa a colheita/ Dança que o amor se revela/ No que cobre o véu/ Dança que a vida é bela/ E a semente é fiel...’ (‘Lavrador’, de Moraes Moreira e Luiz Paiva).
Na vida a dois, como num rali de regularidade, ganha não quem chega antes, mas quem cumpre corretamente todas as etapas. Há o tempo de flertar, o de namorar e o de casar. Desfazem-se tantos casamentos porque não se consegue aguardar o momento certo.
Achando-se muito esperto, o casal não percebe que é preciso ir devagar. Tachem-me de antiquado, não vou brigar nem ficar triste, mas entendo que para cada ato existe uma hora, um momento exato. Também podem considerar-me ‘quadrado’, mas vejo muita pressa em chegar, vocês sabem onde, como se fosse uma corrida de cem metros rasos. Resultado: muitos namorados não namoram: vivem como casados. No início se adoram, mas pouco tempo passa e tudo esfria, perde a graça, e aí se desentendem por nada, ficam menos tempo em paz do que brigados. Então se casam, porém contrariados, pois o ato não decorre de uma vontade firme, mas de certa pressão, para não fugir do compromisso, não ver anseios alheios frustrados. Por isso, após contraírem matrimônio, no lugar da união, da afeição, querem mesmo é verem-se separados. É um pandemônio. Consumada a separação, é guerra; em vez de amigos, inimigos declarados.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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