Absurdos brasileiros


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Relaxados e gozados, assistimos a mais um capítulo de filme de terror protagonizado pela aviação brasileira, numa seqüência que nos parece longe do fim, porque a impunidade que reina neste País favorece a sua continuidade mais ainda em função da incrível ganância empresarial que faz com que os passageiros sejam tratados e transportados como vacas em caminhões ou sardinhas em latas. Devido às más condições de conservação física das aeronaves – exigem um alto custo para a sua solução, razão mais do que suficiente para ser evitada ao máximo e de forma criminosa, principalmente para não prejudicar os lucros –, dificilmente veremos medidas saneadoras no setor. Isso também se aplica às reformas das pistas e dependências dos aeroportos brasileiros. Estes fatos, em face da sua habitualidade já deixaram há muito tempo de serem tachados como tragédia, caracterizando-se na verdade como crimes dolosos, tipificados como homicídio em massa. Os responsáveis, tanto pelo lado do governo, como das empresas privadas, deveriam ir a julgamento pelo tribunal do júri, composto por gente do povo, onde receberiam, na esfera penal, o merecido castigo. Na esfera civil, tendo em vista que as notícias das causas dos acidentes são na sua grande maioria apontadas como falhas mecânicas (falta de manutenção), o que poderia em tese inocentar as seguradoras, deveriam levar as ações relativas a estes fatos a serem julgados por um tribunal especial, em rito sumário, com recursos restritos e com penas severas, inclusive prisão, para os procrastinadores ou inadimplentes e responsáveis. É absurdo crer que levaram um monte de ferro-velho e retorcido até os Estados Unidos como sendo a ‘caixa preta’ da aeronave sinistrada, demonstrando um desrespeito e pouco caso para com as vítimas e suas famílias, além de jogarem nosso dinheiro direto para o lixo com estas andanças sem sentido, sujando nossa imagem que já não é boa lá fora, a de que não passamos de ‘macacos comedores de bananas’. Brincam com a vida das pessoas, com coisas sérias e com isto fornecem audiência para alguns apresentadores de meios de comunicação, que transformam estas tragédias em circo de horrores e só faltam babar de prazer, desrespeitando não só aqueles que morreram como também as suas famílias. E nós, que gostamos destas baixarias, ficamos avidamente com os olhos e os sentidos pregados principalmente quando vêm acompanhadas de sangue e mais sangue. Precisamos mudar nossas atitudes em relação a estes fatos e de assistentes passivos e lascivos, passarmos a exigir do governo medidas sérias, severas e eficientes para acabar de vez com estes absurdos. Em um outro país qualquer em que a vida humana é aquilo que há de mais precioso e se deve preservar sempre, muitas cabeças teriam rolado em face de um crime dessa natureza, mas aqui, diante de uma vaia estrondosa de noventa mil brasileiros ao seu presidente em uma festa esportiva internacional e depois de um crime monstruoso dessa natureza, somos obrigados a ouvir falácias, besteiras, desculpas esfarrapadas, nenhuma solução ou punição dos responsáveis e por fim o epílogo, ou o ápice do absurdo: “relaxa e goza’. Merecemos. ODORICO ANTÔNIO SILVA é advogado

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