Era uma vez...


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No paraíso. Tudo era perfeito, belo e harmonioso. Mas o diabo achou por bem perturbar toda aquela beleza e “desviou’ sua terrível embarcação composta pelos mais terríveis demônios, dentre os quais havia os estupradores, os destruidores da natureza, os ladrões, enfim, toda espécie de malfeitores e enveredou-se para o lindo continente. Como no paraíso não havia pecado, ninguém conhecia o mal. Todos andavam nus, não havia doenças, interesses, mercado, Ministério da Fazenda, e nem desastre aéreo. Tudo funcionava em perfeita sintonia: homem/natureza e não homem x natureza ou homem x homem, ou mesmo máquina x homem. Os habitantes do paraíso viam a face de Deus e conversavam com Ele. Mas a terrível embarcação tripulada e entulhada de demônios cada vez se aproximava mais. Até que um dia qualquer de abril ancorou na costa do paraíso e avançou rumo ao seu interior. Inicialmente, haja visto que o diabo é farto de escrúpulos, sentiu-se na obrigação de vestir toda aquela multidão de seres puros. Claro, é vergonhoso receber a visita do diabo sem as roupas, portanto era imperativo vestir todos. Vestiram-nos com a roupa da hipocrisia, da competição, da morte. Não apenas a morte física, mas a morte de sua história, de suas crenças, de sua cultura. Vendo os demônios que no paraíso havia muito ouro e pedras preciosas, tratou logo de estabelecer-se. Derrubou todas as árvores que pôde, abriu várias empresas de mineração, o que foi fácil, pois não havia a Lei do Simples, escravizou os habitantes e nem pensou em criar um fundo de pensão para as famílias órfãs. O diabo é mesmo terrível. Mas, não era só isso. O diabo é exímio estrategista. Naquela época já planejava o êxodo rural, megalópoles caóticas, favelas gigantescas, organizações criminosas, analfabetismo, crianças de rua, trânsito assassino, aeroportos sem pista de pouso, políticos sem escrúpulos, aeronaves sem comandantes, a morte de Deus e o nascimento da estupidez em massa. O pior é que o diabo é tão persuasivo que já se passaram mais de quinhentos anos e ninguém tentou expulsá-lo. Ele tem inculcado na mente de toda a gente que tudo deve prevalecer e permanecer como está. Não há nada de errado. É só ‘relaxar e gozar’, porque depois a gente esquece tudo mesmo. Um dado importante é que o Maldito fez as pessoas acreditarem que nesse antigo paraíso é cada um por si. No máximo uma identidade nacional quando se trata de esportes e carnaval. Trabalhou tão bem que o povo não se reconhece como nação. O paraíso ficou dividido entre ricos e pobres, espertalhões e parvos, ou seja, dentro de um mesmo território, existem vários ‘territórios’, cujo limite, apesar de visível, faz com que o conformismo e a alienação mantenham todos numa calmaria que beira à violência contra a lógica e a racionalidade. A corrupção moral que assola esse povo os mantém inertes e com sentimento de impotência. E é exatamente esse o propósito. Fazer com que milhões de pessoas se sintam incapazes de tomar decisões e arremeter, ainda que sob o risco de uma colisão. Pior do que está é difícil ficar, todavia não é impossível. O amadorismo dos políticos coligado com o profissionalismo do diabo tem o condão de tornar as coisas ainda piores. Mas, atenção. O Pan e o desastre aéreo, alvos constantes das mídias, podem fazer com que as canetadas de sempre lá na capital do paraíso perdido sejam ainda mais perniciosas, tendo em vista que as atenções estão voltadas para outros alvos. O Ministério das Causas Impossíveis adverte: diversão e tragédia juntas são ótimos ingredientes para comporem a receita da distração. E foi por estar distraída, maravilhada com as belezas do paraíso, que Eva aceitou a oferta do diabo e provou da fruta da árvore do bem e do mal. O fim dessa história está no começo. NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental

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