Nunca na história deste País houve um acidente aéreo de tal proporção. O espetáculo do crescimento econômico apontado pelo homem forte da economia tupiniquim revela, em terras de Cabral, sua face mais horrorosa. O conselho nada pudico da sexóloga instalada na Esplanada dos Ministérios leva às lágrimas milhares de pais, irmãos, viúvas, órfãos e amigos das quase duzentas vítimas fatais. Com a agenda de viagens cancelada, o senhor presidente da República submeteu-se, menos de 24 horas após o acidente, a uma pequena intervenção cirúrgica para a retirada de um terçol na pálpebra direita. Compromisso “sui generis” para o chefe de um governo muitas vezes míope, estrábico, praticamente cego. Excetuando-se a prisão dos controladores responsáveis pela famigerada “operação padrão” e o jogo de cena da mudança do ministro da Defesa, esta pode ser considerada a mais radical das ações do governo federal frente ao caos aéreo. Pode-se dizer que o governo literalmente cortou na carne. Há mais de dez meses o caos aéreo e mais uma meia dúzia de escândalos razoavelmente indigestos para a maioria dos brasileiros emergem dos porões e levita sobre as obras de Niemeyer no planalto central, sem que ninguém efetivamente seja responsabilizado e punido. A não ser agora, o terçol, estirpado com refinada técnica cirúrgica, não incomodará mais a visão do senhor presidente da república do Brasil. Há quem culpe a janela pela paisagem. Há quem culpe o termômetro pela febre. Que culpa teria o terçol?
Alexandre Leonel
é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio
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