William Silva, 21, é almoxarife em uma fábrica de calçados de Franca. Como qualquer outro trabalhador da sua área ou jovem de sua idade, usa no dia-a-dia calça jeans, tênis e camiseta. O básico. É assim que ele também pode ser visto nas ruas, no supermercado, na roda de amigos e em casa. Moreno, de estatura média, tem o estilo de uma pessoa comum que não chama a atenção por onde passa. Você, dificilmente repararia nele, durante o dia, ao cruzar uma esquina ou enquanto espera na fila do banco.
Discreto, Silva, que é homossexual assumido, não se incomoda com o anonimato, afinal ele tem horário de duração. À noite, tudo muda. O jovem vira artista, adota apelido de inspiração cômica, ganha aplausos e desperta olhares curiosos do público. Com peruca espalhafatosa, adereços de cabeça, bijuteria cintilante, bota de salto fino e cano alto, bolsinha da Hello Kitty, peças de brechó, meia arrastão e maquiagem forte, com direito a cílios postiços, entra em cena, depois de longos 40 minutos, a “Nega do Bafão”.
Quê? Isso mesmo. De dia, William é almoxarife em conceituada fábrica da cidade e, de noite, se veste de maneira teatral e exagerada (“se monta”) para dar lugar à Nega do Bafão, uma drag queen acostumada a fazer shows em boates de Franca, mas que também anima festas, como confraternizações, formaturas, casamentos e aniversários de 15 anos, protagoniza telegramas falados e atua como hostess, uma espécie de recepcionista de casas noturnas.
Na linguagem GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), ela é o que se chama de “bafão”, ou seja, um sucesso (leia mais sobre o linguajar GLS no quadro abaixo). Impossível não rir de sua atuação caricata. São dois anos de carreira. Nega conhece cada segredo dos bastidores do mundo gay de Franca como a palma de sua mão e abusa das gírias do universo arco-íris. Não falta a uma balada do gênero e, depois que se transformou numa drag, como diria a personagem Bebel, da atriz Camila Pitanga na novela Paraíso Tropical, “de catiguria”, freqüenta várias festas de granfinos. “Me sinto um ator e faço a personagem mais por prazer, me sinto bem ao fazê-la”, diz Silva, minutos antes de se transformar na Nega.
Embora seja uma diversão para ele ou ela (como você preferir), a drag também é fonte de renda para o almoxarife. Cada apresentação, de quatro horas de duração no máximo, custa de R$ 100 a R$ 200. “Depende da festa. Tem umas que preciso ir mais chique, né? Todo o meu guarda-roupa sai do meu cachê. Entendeu?”, explica, sem dramas, a drag.
Segundo William, sua família aceita sua opção sexual e seu trabalho de drag. “Só tenho problemas com uma tia, que é evangélica e não aceita minha homossexualidade”, completa.
Coordenador da Associação GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Gilberto Almeida acredita que Franca tem pelo menos 40 homens que trabalham como travestis ou drag queens na cidade e região, o que inclui principalmente Ribeirão Preto. Somente no grupo de amigos de Silva, todos homossexuais, são mais três homens que se vestem de drag. “É uma forma de quebrar o preconceito e divulgar a comunidade”, disse um deles, que à noite incorpora a drag “Denny Saito”.
“Bhionda Louran’s”, outra personagem da turma, diz que as drags são bem aceitas entre os heteros, mas que muitos ainda confundem drag queen e travesti. “Travestis são homossexuais que modificam o corpo para assumir a aparência de mulher. Tomam hormônios femininos, implantam próteses de silicone, submetem-se a depilações definitivas e, em alguns casos, sobrevivem da prostituição. Drags são personagens, homens que se fantasiam para imitar uma cantora, fazer um show”.
William, ou melhor, Nega do Bafão, é presença garantida na 1ª Parada Gay GLBTT de Franca, que acontece no próximo domingo, às 14 horas, no Parque “Fernando Costa”. Ele - ou ela - deve ser um dos apresentadores do evento.
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