Ainda não sabe ler


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TÍMIDO - TJB olha pela janela da sala de sua casa durante entrevista ao jornal. Jovem tem 15 anos, está na 8ª série, mas escreve e lê com dificuldades: “Leio mais ou menos”, diz
TÍMIDO - TJB olha pela janela da sala de sua casa durante entrevista ao jornal. Jovem tem 15 anos, está na 8ª série, mas escreve e lê com dificuldades: “Leio mais ou menos”, diz
A estrada que leva até a residência continua estreita e perdida no meio do cafezal. A casa, pertencente ao dono da fazenda, continua simples e com três quartos, chão vermelho e portas e janelas azuis. Na sala de televisão, dois sofás pequenos e dois grandes continuam sobre o tapete. Foi sentado sobre um dos braços desses sofás e olhando longe pelas grades da janela que TJB, aluno que no ano passado estava na 7ª série e não sabia ler nem escrever, disse que algo mudou: ele passou para a 8ª série, mas continua sem saber ler e escrever. Tímido ao extremo, TJB, hoje com 15 anos, ficou de costas para a jornalista e o fotógrafo e pouco falou sobre as mudanças na sua vida após um ano e três meses após a primeira entrevista dada ao Comércio da Franca. O menino de estatura mediana, cabelos castanhos um pouco ondulados e acima do peso, mora na zona rural de Franca com os pais e dois irmãos de 25 e 20 anos. Mas quando recebeu o jornal estava apenas com a mãe, a dona de casa Selma, 46. Os outros estavam trabalhando na roça envolvidos com plantações e animais. Durante a conversa, mãe e filho relataram as poucas mudanças desde o contato com o jornal no dia 19 de abril de 2006 quando o Comércio denunciou o caso do garoto que havia pulado da 5ª para a 7ª série e não sabia ler nem escrever. TJB completou 15 anos em fevereiro e foi aprovado na 7ª série e mesmo sem saber ler nem escrever e fazer contas está hoje matriculado no último ano do ensino fundamental da Escola Estadual “Júlio César D’Elia”. Após reportagem, a Diretoria de Ensino da Região de Franca contratou a psicopedagoga Rute Jacinto para acompanhar o aluno. Nem Selma nem o filho se lembram do período exato em que a assistência profissional e individualizada foi prestada. Sabem apenas que ocorreu em 2006. “Logo depois do jornal soltar a matéria, arrumaram a pedagoga para ele. Acho que foi entre maio e novembro mais ou menos”, disse a dona de casa. TJB disse que as aulas com Rute aconteceram às terças e quintas-feiras durante 50 minutos por dia na sala de informática da escola. Antes das aulas “normais”, a profissional, segundo o jovem, aplicava exercícios de escrita e leitura. “Eu fazia cópias de textos e ditado. Era mais português”. O atendimento começou a ter resultados. No ano passado, o jovem não conseguia ler nem as próprias redações. Não entendia o que escrevia. Hoje, consegue decifrar alguns conjuntos de sílabas, mas com dificuldades. Ele mesmo assume as deficiências ao ler as palavras. “Leio mais ou menos”, diz constrangido. O trabalho individualizado e focado no problema feito pela psicopedagoga mostrou algumas mudanças e poderia, mesmo que a passos lentos (o que esperado num processo de alfabetização, especialmente para alguém que está há mais de 8 anos na escola e não conseguiu aprender) transformar a trajetória do menino. Mas o processo foi interrompido neste ano. Mãe e filho não sabem explicar os motivos e ficaram contrariados com a suspensão do atendimento. Mais uma vez, a dirigente regional de Ensino, Ivani Marchesi, se limitou a comentar o caso por e-mail. Ela, mesmo que a psicopedagoga não se reúna mais com TJB, nega que o acompanhamento pedagógico tenha sido interrompido e disse que “ninguém passa de série ou avança sem ter conteúdo compatível”. “Queria continuar. Ela (a psicopedagoga) me ajudava, conversava comigo”, disse TJB. “Foi com ela que ele começou a ler”, contou a mãe. Selma é outra a lamentar a suspensão. Para ela, o trabalho estava sendo bom e aumentou a auto-estima do filho para estudar. Ele passava mal, tinha dor de estômago, ânsia de vômito e chorava ao ir para a escola. O comportamento dele mudou. “Agora ele vai mais animado. Levanta cedo, arruma o cabelo, se cuida e vai estudar mais alegre. Mas ainda falta mais para ele aprender. Ele ainda tem de esforçar demais para conseguir ler”. O esforço a que a mãe se refere pôde ser comprovado pelo Comércio. Na casa dele, a reportagem pediu para que lesse um texto. Num primeiro momento, balançou a cabeça dizendo que não queria, mas depois do silêncio diante do papel, se arriscou. Das dez palavras apontadas pelo repórter, não conseguiu decifrar todas. Não leu “esse”, “quadro” nem “conduta”. As outras sete (professor, aluno, escola, etc.) pronunciou após ajuda do repórter que disse a primeira sílaba. TJB estava nervoso pela presença dos repórteres e introvertido, mas as deficiências de seu conhecimento são evidentes. Logo depois, o menino se recusou a escrever o nome e a mostrar seus cadernos. “Não sei cadê”. ROTINA TJB acorda cinco e pouco da manhã e, sem café, toma o ônibus escolar 5h40 na estrada Rionegro e Solimões, próximo à sua casa. Ele sai da escola 12h20 e chega à fazenda onde mora por volta das 13 horas. Após o almoço, fica em casa. Não sai, não tem contato com outras pessoas e não gosta muito de televisão. “Ele fica aqui, parado”, disse a mãe. Nas férias, ajuda a cuidar da casa. A rotina do adolescente pode mudar um pouco no ano que vem. TJB completará 16 anos em fevereiro e, com idade permitida, quer ser lavrador como o pai e os irmãos. Mas ele diz que não abandonará os estudos. “Vou terminar. É ruim ficar sem estudar”, disse olhando para o chão. Para cumprir sua palavra, porém, TJB terá de se esforçar e ser perseverante para ser uma exceção dentro de sua família. Os pais nem terminaram o ensino fundamental; estudaram até a 5ª série. Os dois irmãos pararam os estudos no ensino médio. Um freqüentou a escola até o meio do terceiro ano e o outro parou no primeiro.

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