A aposta no 0,5 da Selic


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Mensalmente a Agência Dinheiro Vivo promove um encontro entre economistas de diversas tendências, visando encontrar denominadores comuns na análise econômica. A visão unânime do grupo é que o Banco Central errou a mão em janeiro, quando decidiu reduzir o ritmo de juros da taxa Selic. Ao não acompanhar o ritmo de queda das taxas internacionais, o BC provocou um desequilíbrio na taxa de câmbio: houve entrada excessiva de dólares apreciando o real. Agora, há uma aposta firme de economistas de mercado e da indústria de que na próxima reunião, o COPOM (Comitê de Política Monetária) mantenha o ritmo de queda dos juros em meio ponto. Se reduzir para 0,25 pontos, o dólar cairá mais aceleradamente obrigando o BC a voltar ao ritmo original. A aposta é que, daqui até o final do ano, haverá meio ponto de queda em cada uma das três reuniões remanescentes do COPOM. No quadro atual, o grupo considera que o crescimento atual reflete exclusivamente a redução das taxas de juros. As taxas deverão cair até 9% ao ano. Nesse período, o crescimento de 4,5% ficará assegurado. Depois que terminar o processo de redução da queda dos juros, o crescimento dependerá de outros fatores relevantes, como reformas, melhoria do ambiente econômico etc. O fluxo de investimentos diretos continuará forte no país, devido a um fenômeno global, de mudança dos parâmetros de preço dos chamados ativos reais. Essa mudança no preço dos ativos pode ser explicada pela taxa de juros global. O preço de um ativo é dado pelo fluxo de recursos que ele geral, trazido a valor presente pelo chamado custo de oportunidade (no caso, as taxas internacionais). Quanto maior a taxa internacional, menor será o valor do ativo. Nos últimos anos, só por conta da redução dos juros, um ativo que anos atrás valia, digamos, US$ 14,00 passou a valer US$ 50,00 - supondo que a empresa continuasse com o mesmo rendimento que tinha. Isso se deve ao excesso de poupança acumulada nos anos 90 e ao envelhecimento da população mundial, reduzindo os ganhos de produtividade. Com menos ganhos de produtividade, houve um descompasso entre a riqueza financeira mundial e a produção - levando à valorização da produção (ou ativos reais, de forma mais genérica). O erro maior do Banco Central foi não ter entendido esse novo quadro, assim como não ter entendido a maneira adequada e traba-lhar com os superávits comerciais dos últimos anos. O Brasil sempre trabalhou com déficits, moratórias etc. Quando surgem os superávits, há duas maneiras da economia reagir a eles. A primeira, produzindo o ajuste através do crescimento do PIB. Ou seja, o PIB cresce mais, aumentam as importações e se chega ao equilíbrio. A segunda - radicalmente diferente - é através da apreciação da moeda nacional. Com isso, o PIB não cresce, mas a apreciação da moeda provoca um aumento nas importações. Em ambas as situações, chega-se ao equilíbrio: na primeira aumentando a riqueza nacional; na segunda provocando a estagnação. Esses anos todos os BC optou pelo segundo caminho. Metas de mercado No início do ano, os grandes bancos de investimento estrangeiro fixaram metas de desempenho consideradas absurdas pelos funcionários das filiais brasileiras. Em maio, essas metas já tinham sido alcançadas. Tudo graças à política monetária do Banco Central, e ao excepcional diferencial entre as taxas de juros internacionais e as internas, levando à apreciação do câmbio. Para o ano que vem, os ganhos serão incertos. A juventude do BC - 1 Fora do mercado, se atribuem os erros do Banco Central na condução dos juros à apropriação do banco pelas instituições. Os diretores manteriam juros altos para garantir os fortes ganhos de seus empregadores passados e futu-ros. No mercado, se atribuem os erros à inexperiência de sucessivos diretores. São pessoas com pouquíssimo tempo de formado, quase juniores, que assumem papel acima da sua experiência e conhecimento. A juventude do BC - 2 Nos últimos tempos, o BC retomou a redução dos juros em meio ponto graças ao afastamento gradativo de diretores-economistas de mercado. Nas últimas reuniões, os remanescentes voltaram a insistir na redução de 0,25 ponto, mas acabaram derrotados pelos demais diretores, alguns dos quais, recém entrados, operadores com experiência maior de mercado. A juventude do BC - 3 Agora, esse modelo terá que ser revisto. Não dá para uma ins-tituição como o BC depende de jovens economistas que o utilizam permanentemente como trampolim para cargos melhor remunerados no mercado financeiro. Nos Estados Unidos, os diretores do FED (o Banco Central americano) são recrutados entre grandes nomes da área acadêmica. Depois que saem, o período sem participar do mercado é de quatro anos. A juventude do BC - 4 No início de 2003, escrevi uma coluna criticando esse fato dos economistas do BC utilizarem o banco como trampolim para uma carreira no mercado financeiro. Na época, irritado com minhas críticas, o presidente do BC Henrique Meirelles escreveu uma carta, assinada por todos os diretores, protestando contra minha desconfiança em relação aos objetivos dos diretores. O último que saiu, Rodrigo Azevedo, prepara-se para ingressar em um "hedge fund". Zonas de Processamento Ao que tudo indica, a decisão de Lula de vetar o Projeto de Lei sobre as Zonas de Processamento de Exportações, visou abrir ca-minho para uma Medida Provisória criando essa excrescência. Serão várias Zonas Francas de Manaus espalhadas pelo país e controladas por chefes políticos estaduais.

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