Muito se especula sobre o destino do pólo calçadista francano. Operários, técnicos, consultores, representantes comerciais e demais profissionais do setor, além dos próprios fabricantes, divergem nos seus prognósticos.
As projeções variam do fatalismo ao otimismo, com diversas intensidades nessas vozes (graves, médias e brandas).
Embora os calçadistas detestem essas especulações, por enxergarem mais críticas às suas fragilidades do que referências às suas potencialidades, não podem rejeitá-las, porque seria desprezar a importância econômica e social da classe. É direito da comunidade opinar sobre o desempenho coletivo dos fabricantes (não o individual, ressalte-se), já que boa parte dos francanos depende deles, direta ou indiretamente.
No entanto, porém, entretanto, qualquer avaliação sustentável sobre o futuro dessa atividade na cidade depende da combinação de uma série de conhecimentos, que ninguém tem, mesmo o vidente ou o pai-de-santo mais iluminado. Não há como especular sobre o amanhã se o hoje é bastante desconhecido.
Já dissemos e repetimos: a configuração do pólo calçadista de Franca não é a mesma de uma década atrás. Empresas grandes e médias foram substituídas por micro e pequenas. Entraram nessa atividade engenheiros, médicos, dentistas, ex-bancários etc., não apenas ex-funcionários de fábricas.
Afirma-se que há 750 fabricantes na cidade, baseando-se num levantamento que o esforçado Alfredo José Machado Neto (pró-reitor do Centro Universitário Uni-Facef) fez há cinco anos, por iniciativa própria. Até então, imaginava-se que eram em torno de 500. Mas quem são eles, quais suas deficiências e a capacidade de superá-las?
No final de 1993, a diretoria estadual do Serviço Nacional da Indústria (Senai), influenciada pelo prestimoso e saudoso Márcio Bagueira Leal, liberou uma grana considerável para que fosse executado em Franca um programa de gestão da qualidade da indústria calçadista, que começou no embalo e ficou nisso.
Inscreveram-se 120 empresas (a fina flor da produção). Elas revelaram naquela época:
- 81% atrasam as entregas dos pedidos, por falta de matéria-prima (58%), falta de planejamento (35%), falta de pessoal (23%) e quebra de máquinas (17%);
- 95% não têm controle sobre número de horas/homem e horas/máquinas perdidas; 37,5% não sabem apurar custos de mão-de-obra.
- 81% têm problemas de estrangulamento da produção e a maioria (68%) recorre a horasextras para cumprir compromissos de entrega.
- 21% não fazem qualquer tipo de controle dos materiais que lhes são fornecidos e os que adotam esse procedimento (79%) fazem-no de forma precária ou pouco racional.
- 37,5% não fazem cruzamento da quantidade de matéria-prima consumida com a quantidade de pares produzidos.
Esses dados são uma parcela dos coletados pelos técnicos do Senai. Havia outros desabonadores - sobre relação de trabalho, por exemplo -, que somados inviabilizam teoricamente a existência de uma empresa. Isso ocorreu em 1993. É a realidade atual? Não se sabe. Mas se saberá agora, finalmente, por que o presidente do sindicato calçadista, Jorge Félix Donadelli, nos assegura que a entidade realizará esse levantamento com urgência.
PACOTE VAZIO
O governo federal prometera em meados de junho liberar 3 bilhões de reais em linhas de financiamento, com juros subsidiados, aos setores mais afetados pelo câmbio entre eles, calçados, têxteis e móveis. Garantira ainda redução da alíquota do Pis/Cofins e o ressarcimento imediato de antigos créditos tributários acumulados pelos exportadores. Decorrido mais de um mês, nenhuma medida foi implementada.
NOVA TEC
O Uruguai aprovou finalmente o pedido do governo brasileiro para que a tarifa de importação de calçados dentro do Mercosul (a tal de TEC Tarifa Externa Comum) passe dos atuais 20% para 35%. Argentina e Paraguai, os outros dois integrantes do bloco, já haviam dado resposta favorável. A medida visa encarecer um pouco o sapato chinês, que por ser baratíssimo entra às toneladas nesses países (e das outras partes do mundo).
SALTO OLÍMPICO
As exportações de calçados do Ceará somaram 16,4 milhões de dólares no primeiro semestre. O faturamento cresceu 214,7%, comparado ao do mesmo período do ano passado (US$ 5,23 milhões). Já o valor das vendas externas de couros daquela região, na mesma comparação, passou de US$ 51,2 milhões para US$ 55,6 milhões e aumentou 8,6%. Os dados são da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
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