Que o primeiro escalão do governo federal está recheado de gente com pouca habilidade com as palavras quando o assunto é o caos aéreo, isso todos nós já sabíamos. Tivemos o relaxa e goza, a culpa é dos passageiros e até o espetáculo do crescimento.
E quando pensávamos que já tínhamos ouvido de tudo, somos surpreendidos pela dantesca mímica ministerial, no melhor estilo “f...-se”. Após assistir à cena colhida “à revelia e de maneira clandestina”, é impossível não se perguntar: “f...-se quem?”
A imprensa ‘golpista’ que várias vezes se antecipou ao veredicto final das investigações e precipitadamente culpou o governo e seus prepostos? A empresa aérea? A oposição, que vislumbrou no trágico episódio mais uma oportunidade para arranhar a blindada imagem do presidente da República? Os pilotos do airbus? Os passageiros? As viúvas? Os órfãos? Quem, afinal de contas, foi o alvo do “f...-se?”
No país de todos, talvez seja difícil identificar apenas um cidadão merecedor de tal alegoria, afinal de contas não é de hoje que muitos brasileiros, trabalhadores, empresários, professores, crianças e velhos, com certa freqüência têm se “f...” em razão das mazela éticas e morais de nossos homens públicos.
Talvez o que mais tenha ofendido seja o fato de percebermos que eles, eleitos por nós, pagos por nós, sintam certo prazer sádico ao saber que, “aqui em baixo onde as leis são diferentes”, alguém está sempre pronto para se “f...”. Analisada sob a luz da teoria da conspiração, a seqüência de episódios sórdidos envolvendo o transporte aéreo de passageiros no Brasil tem se tornado uma rosca sem fim em direção ao fundo do poço. Temos deixado para trás não só os investimentos em tecnologia e segurança. Abandonamos também e há muito tempo, o amor próprio, o respeito pela dor, pelo sentimento da perda.
Bandeira a meio mastro teria um significado mais digno se a nação por ela representada fosse pelo menos privada de cenas tão deploráveis. Tarjas pretas cumpririam melhor o seu papel se fossem usadas para poupar nossos olhos de tal escárnio. Até onde iremos? O que mais teremos que ouvir e ver?
Há mais de dez meses o caos aéreo e mais uma meia dúzia de escândalos razoavelmente indigestos para a maioria dos brasileiros emergem dos porões e levitam sobre as obras de Niemeyer no planalto central, sem que ninguém, a não ser os pagadores de impostos, efetivamente seja responsabilizado e punido.
Seja como for, o fato é que muitas das vezes um gesto vale mais que mil palavras.
ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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