<p>Natural de Serra Azul, com mãe nascida em Altinópolis, o presidente da Câmara Federal e terceiro homem na sucessão ao Palácio do Planalto, Arlindo Chináglia (PT-SP), tem fortes ligações com a região. Em Patrocínio Paulista, recebeu 6,13% dos votos válidos - foi escolhido para deputado federal por 636 eleitores. A votação é considerada alta (ele foi o quinto deputado mais votado na cidade), já que Patrocínio não faz parte de sua base eleitoral. Em agradecimento, o petista visitou a cidade no dia 30 junho, com direito a passeio por obras feitas com recursos da União e participação na Festa do Peão.</p>
<p><br />Junto do companheiro de agremiação, o prefeito José Mauro Barcellos, considerado por ele a maior liderança do partido na região, Chináglia concedeu uma entrevista exclusiva ao Comércio em que fala sobre os principais pontos da reforma política, corrupção, crise das instituições e a onda de escândalos que assolou o PT depois da chegada do presidente Lula ao poder. Confira os principais temas. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como anda a reforma política?<br />Arlindo Chináglia</strong> - Deveremos discutir e votar a proibição de coligações nas eleições proporcionais, aprovar a fidelidade partidária e é possível que se discuta a questão do financiamento público em eleições majoritárias.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor acha que a derrota do texto da lista fechada dificulta uma mudança mais profunda?<br />Chináglia</strong> - Se tivesse sido aprovada a lista pré-ordenada, teríamos uma mudança mais profunda. Sob este aspecto já aconteceu, mas proibir coligação proporcional também é algo importante. Por quê? Hoje as pessoas imaginam que, ao votar em uma pessoa, em um candidato, se aquele candidato não se elege, o voto delas não serviu para nada. É um engano, você vota em um candidato, Pedro, do partido A. Se o Pedro não se eleger e houver coligação com o partido B, o voto do Pedro pode eleger a Maria do partido B. Ao proibir coligação proporcional, você está eliminando esta possibilidade. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor ainda defende a lista fechada?<br />Chináglia</strong>- Eu como presidente não entrei no debate. Muitos imaginaram e analisaram que votar em lista fechada é tirar o direito do cidadão escolher seu candidato. É uma análise absolutamente insuficiente, equivocada. Hoje, de 513 deputados, apenas 31 tiveram votos suficientes pessoalmente falando, chamado voto unipessoal, para se eleger. Mas essa não era a questão central. </p>
<p><strong>Comércio - E qual era, então?<br />Chináglia</strong> - Repito, a questão central era o financiamento público de campanha. Exemplo: você pega um candidato a prefeito ou a deputado. Ele recebe dinheiro de uma empresa de ônibus. Se amanhã houver uma licitação naquela cidade e aquela empresa que doou o dinheiro ganhar a licitação, quase ninguém vai acreditar que é uma licitação honesta. O que as pessoas não sabem é que com o financiamento privado você cria vínculos políticos, que não se extinguem no final das eleições. Muito pelo contrário, começam a partir dali de maneira perigosa. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor considera o voto distrital uma boa alternativa?<br />Chináglia</strong> - Na mesma linha eu evito comentar. Posso falar da minha posição histórica, que sempre teve divergência na sociedade. Há um discurso de que o voto distrital daria mais controle para a sociedade sobre o seu candidato. Eu não acredito muito nisso. Como é feita a votação no Congresso Nacional? São posições de bancada, ninguém vota pelo endereço. “Eu sou de Patrocínio Paulista portanto eu voto dessa maneira.” Não, eu voto dessa maneira porque eu sou humanista, defendo saúde pública e educação de qualidade e defendo moradia. </p>
<p><strong>Comércio - Em relação às denúncias no Senado, com o presidente Renan Calheiros, está havendo um pré-julgamento?<br />Chináglia</strong> - Primeiro a Veja publicou que o Renan tinha contas pessoais pagas por um lobista de uma dada empreiteira. A Veja não provou isso. Nessa seqüência, o Renan declarou que tinha recursos próprios e apresentou sua movimentação comercial e houve um questionamento das notas. O que hoje acontece: que o Conselho de Ética está investigando, a Polícia Federal está investigando. Eu tenho que evitar, da minha parte, fazer um pré-julgamento, porque todos os cidadãos merecem aquela segurança jurídica que é que todo cidadão é honesto até que se prove o contrário. Na política, qual é o problema? É que o fato de sair uma denúncia significa já uma condenação pública. Há uma desconfiança da população. </p>
<p><strong>Comércio - A população tem a sensação de que a corrupção aumentou. É verdade?<br />Chináglia</strong> - Eu nunca vi um estudo científico que nos desse referências sólidas a esse respeito. Nós temos na história do Brasil aqueles que grilaram terra ao longo de décadas e de séculos e que foi um processo extremamente desonesto. Nós tivemos processos onde poucos se beneficiaram do patrimônio público, negociando com as estatais ou com a própria privatização delas. Durante a ditadura não havia liberdade de imprensa, a sociedade não podia opinar, então pode ser que alguém imagine que durante este período não havia corrupção. Havia e o endividamento do Brasil foi grave neste período como foi grave no governo passado do Brasil. </p>
<p><br />Antigamente, você não conseguia gravar, você não tinha mecanismos de investigação, de inteligência, como você tem hoje. Será que no passado, se houvesse esses mecanismos, nós não teríamos coibido mais a corrupção do passado? Quando eu digo isso, evidentemente, não é para justificar. O que observo é que hoje se tem mais recursos. Na Constituição de 1988, ampliamos o poder do MP e a Polícia Federal hoje, sabidamente, tem muito mais liberdade de agir do que no passado. Vou te provar com um único exemplo. O ex-presidente do Banco Central no governo FHC, Chico Lopes, em dado momento ficou sob investigação, invadiram o apartamento dele, encontraram alguns milhões e o presidente de então, de Paris, mandou demitir o chefe da P.F. do RJ. Então eu acho que há um aprimoramento daquilo que a gente pode chamar das instituições e também do controle social. </p>
<p><strong>Comércio - Então não está havendo uma crise das instituições e sim uma consolidação da democracia?<br />Chináglia</strong> - Trabalhar com crise era colocar no horizonte a possibilidade de um retrocesso institucional. Ninguém defende isso. A conquista da democracia custou vidas humanas no Brasil e no mundo inteiro. Não há nenhum país democrático que prescinda por exemplo da liberdade de imprensa ou de um Congresso funcionando. Agora, veja, não há instituição perfeita. Não podemos confundir os casos, por mais freqüentes que sejam, em qualquer instituição. Então na PF tem gente que não presta, nas igrejas tem pecadores, nas forças armadas, no MP, na política e até nas famílias. Você não pode culpar o pai e a mãe porque um filho se desviou, ou culpar o filho porque o pai se desviou. </p>
<p><strong>Comércio - O PT, até a chegada ao Palácio do Planalto, era o partido exemplo de ética. O que mudou?<br />Chináglia</strong> - O PT cometeu erros. Eu diria que o povo, de maneira generosa, deu outra chance ao PT. Reelegeu o presidente, elegeu pela primeira vez cinco governadores e foi o partido mais votado na Câmara. Por quê? Quer medir o PT, não vai medir por dois, três ou quatro que erraram. Mede o PT pelos militantes. Aí eu tenho absoluta segurança de dizer que o PT está muito acima da média, do ponto de vista ético, moral, de compromisso social do que os partidos brasileiros.</p>
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