O básico


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Despejada no solo, a água aninha-se na parte mais baixa; só cobre as partes mais altas se houver quantidade suficiente. Preenche os espaços de baixo para cima. É a regra simples e óbvia que o ser humano deveria seguir. Num hipermercado, interessei-me por um aparelho de som portátil e pedi o manual do produto para ver as especificações técnicas. O vendedor disse que não dispunha do manual do objeto exposto, mas que, se eu comprasse um aparelho, viria o manual. Desinteressei-me. Uma regra elementar foi ignorada: permitir ao consumidor o acesso às informações sobre o produto. No caso, eu queria saber a relação sinal-ruído, a taxa de distorção harmônica (THC), a potência real (RMS), a faixa de abrangência do som, enfim, informações para aferir a qualidade do aparelho. Quem trabalha com vendas precisa conhecer bem a mercadoria que oferece ou então ter à mão os dados que não consegue memorizar. Jogar conversa no interessado e dizer ‘pode comprar que o produto é bom’ não funciona. Pelo menos comigo. Sedimentar a base é um princípio elementar solenemente desprezado por muitas pessoas. Todavia, nada se forma nem se sustenta sem uma base sólida. Uma árvore frondosa não resiste ao vento se não tiver raízes fortes. Além disso, ela se forma a partir do subsolo, com a germinação da semente e o crescimento. Alguém já viu uma árvore que começou a se formar pela copa? Por que é preciso aprender a ler, escrever, fazer cálculos? Para ter capacidade de compreensão e de comunicação. Quanto maior essa capacidade, maior a possibilidade de êxito na vida. Uma boa formação, porém, segue em linha ascendente, com a passagem para a próxima etapa, mais complexa, somente após a consolidação do aprendizado da etapa anterior, mais simples. Estudantes e bacharéis em Direito precisam de boa redação e bom desenvolvimento de idéias, e isso só se adquire com muito estudo. Além disso, em vez de ler livros de doutrina e jurisprudência, devem antes conhecer o texto da lei, onde estão as respostas para a maioria das dúvidas. Devem, portanto, solidificar o básico. Antes de voar, é preciso aprender a caminhar. Este princípio basilar vale também para o setor público. À administração pública compete cuidar do básico, do funcional. Obras vistosas, só se há infra-estrutura, saneamento básico e funcionamento dos serviços públicos. Um carro bonito não serve aos fins a que se destina se seu motor não funciona. Onde há infra-estrutura, o setor privado se encarrega do resto. Ninguém constrói uma bela casa, nem monta fábricas, indústrias, onde não tem asfalto, rede de água, esgoto, luz elétrica, transporte público. O que distingue o primeiro do terceiro mundo não é a grandiosidade de certos monumentos, não é a beleza: é o funcionamento dos serviços básicos, a observância das regras comezinhas de civilidade. Por que o jogador de futebol José Roberto voltou para a Alemanha? Dá para censurá-lo? No Brasil há uma inversão de valores, de prioridades. Gastou-se uma fortuna para construir Brasília (podem me tachar de ignorante), o estádio do Maracanã e para sediar os Jogos Pan-Americanos, entre tantas outras coisas, com superfaturamento. O custo é sempre bancado pelo contribuinte. Entretanto, os serviços públicos de que o cidadão necessita não funcionam a contento. A suntuosidade de prédios públicos e o gasto enorme com o pagamento dos vencimentos e benefícios dos detentores do poder são um acinte perante a qualidade da prestação dos serviços. Neste país o Estado não existe para servir o povo. É o povo que existe para servir o Estado. Somos escravos do poder público. Vejam o ‘apagão’ aéreo. Construíram-se aeroportos superfaturados, mas não houve preocupação com a funcionalidade do sistema. Os controladores de vôo ganham salários irrisórios e trabalham em condições precárias. O resultado está aí. A pista do Aeroporto de Congonhas foi liberada antes da hora; não estava pronta. Se ficar demonstrada alguma culpa do Estado na tragédia que lá ocorreu, adivinhem quem vai pagar a conta. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba

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