Você já reparou no quanto a novidade nos aterroriza, embora sempre estejamos no seu encalço? A quebra de determinadas rotinas, encadeamentos de comportamentos, gratificações específicas, coreografias verbais já viciadas de tão repetidas nas nossas relações nos parece, à primeira vista, tão aterrorizante quanto o é para um fóbico pisar terreno desconhecido ou se aproximar da coisa temida.
A coragem diante do novo, e sempre haverá coisas novas nos testando, nos provocando, nos estimulando à vida, será a nossa grande travessia. Mudar e encarar a mudança como essencial, como dizíamos na semana passada, é tarefa de coragem. E, voltando à discussão sobre mulheres que se separam, pensando nisso, já que você chegou a esse ponto, parece improvável voltar. Não. É totalmente plausível que você considere a hipótese de uma reconciliação. De repente você e o seu marido podem perceber que ainda há fôlego para um recomeço gratificante e sem mágoas. Há também mulheres que definitivamente não suportam esse branco nublado dos momentos que se seguem à separação e correm de volta para o companheiro. A reconciliação, se bem ponderada, se reconhecido o amor que permeia a relação é sempre bem-vinda. Já o retorno como fuga de uma situação assustadora, não. Pode ser mais desastroso ainda.
Para continuar em frente, se sua opção é estar sozinha, é interessante que você faça um balanço de sua vida social, de suas prioridades, daquilo que lhe dá prazer e gratificação, daquilo que você repudia. Comece pela reorganização de sua casa, criando um espaço que agora é todo seu.
Não seja masoquista preservando objetos que remetam desagradavelmente à antiga relação nem cultue o sofrimento.
Nesse caso, a criação de uma rotina é fundamental. As rotinas nos dão uma sensação de segurança e de posse de nós mesmos: integridade. Mas podem ser também aprisionadoras. Mantenha aquelas que lhe agradam, substitua as que foram quebradas, crie novas e prazerosas rotinas, conceda-se um pouco mais às delícias do acaso; não se mantenha no impulso inglório de controlar tudo.
MANSON
O cantor Marilyn Manson, que já atordoava a geração dark dos anos 80 com o seu visual excêntrico, suas letras pesadas e som agressivo, ainda faz sucesso entre o público jovem. Num programa da MTV dedicado ao artista, na semana passada, tem-se, a despeito de sua aparência chocante, a imagem de um homem totalmente diferente daquilo que sugere sua indumentária e atitude. Em seu depoimento, ele se diz um homem muito dependente emocionalmente que passou por depressão após ser abandonado pela esposa Dita Von Teese, num casamento meteórico.
COMER & BEBER
Marcado pelas idas e vindas de sua vida amorosa, o cantor, que ficou 4 anos sem gravar, conta que só conseguiu se reerguer depois de se apaixonar por outra mulher, com quem vive atualmente. Essas desventuras parecem ter fornecido material para seu novo álbum de inéditas, ‘Eat Me, Drink Me’ (“coma-me e beba-me”, numa referência à eucaristia). Sobre essa correlação, o artista sintetiza, em algo como: “se eu pudesse escolher uma forma de morrer, eu gostaria de ser devorado por alguém, literalmente. Canibalisticamente. Sei que é um jeito horrível e sombrio de perder a vida, mas me agrada a fantasia de eu estar dentro de alguém, alimentando alguém que gosta de mim. Melhor do que ser só”.
POUR ÉPATER LE BOURGEOIS
Desconsiderando os exageros próprios de quem se construiu chocando os outros, de quem, como são as celebridades de nosso tempo, entrelaça vivências pessoais ao marketing escancarado e lucra com isso, numa espécie de “propaganda ao contrário”, temos basicamente duas questões para pensar: a primeira é exatamente essa idéia de projetar, por temor, por necessidade de olhares, uma imagem assustadora. Talvez seja comum a todos, numa intensidade muitíssimo menor, claro, já que fora dos spots, desejarmos ardentemente o contato, mas nos protegermos dele, contraditoriamente, com atitudes aversivas aos outros, como numa armadura, quando, no fundo, só o que desejamos é ser amados.
FANTASIAS
Outra questão é esse viés ‘canibalístico-predatório- simbiótico’ nas declarações do cantor. Na literatura brasileira atual temos um jovem, Santiago Nazarian, com menos de 30 anos, vencedor do Prêmio Conrado Wessel, cujas obras tratam de temas antropofágicos, por assim dizer, e, em recente depoimento à imprensa, ele disse algo de sua fantasia sobre velhice e morte: “gostaria de ter a oportunidade de, aos 80 anos mudar de sexo. Ou ser devorado por um tigre”.
MAIS
O que se tem nessas expressões e fantasias de comer ou ser comido por alguém é, grosso modo, o protótipo do que a psicanálise chama de incorporação própria à fase oral, situando-se numa forma bastante primitiva de sexualidade. A idéia de fusão com o outro que parte de um mecanismo de identificação primária (exatamente como no canibalismo das tribos primitivas que pregavam ‘você é ou se torna aquilo que você come’). Ao se apoderar oralmente do objeto o indivíduo fantasia suprimir a distância entre si e o objeto e atingir o repouso almejado.
Poder-se-ia considerar tais fantasias também como uma defesa, uma vez que elas, por outro lado, removem o estímulo/objeto também no que ele tem de desagradável.
Mas disso, o que talvez nos seja útil é a correspondência que podemos fazer entre tais ‘exageros’ e nossa vida amorosa: será que ávidos por afeto, não acabamos, em alguns casos, por matar, engolir, no sentido figurado, o objeto amado ou vice-versa?
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.