A ‘besta fera’ do trânsito


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A população brasileira, exposta a todo tipo de violência, assim como a sua crescente banalização, queda-se inerte, em face de mais uma modalidade - a violência no trânsito. As estatísticas são alarmantes e expõe uma realidade que dificilmente poderá se modificar, tendo em vista que não há projetos eficientes nem preocupação com a educação do futuro condutor. A família se desobriga desse ônus, pois acredita que é a escola a responsável pela educação como um todo. A escola, por sua vez, não possui estrutura capaz de sensibilizar o adolescente e o jovem no sentido da responsabilidade e da segurança pela vida do ‘outro’. Ao todo são aproximadamente 40 mil mortes por ano provocadas pela irresponsabilidade e pela falta de educação no trânsito. No século passado, morreram 1 milhão de pessoas no Brasil, vítimas da violência no trânsito. Em Franca, não há um só dia em que os jornais não veiculem notícias sobre mortes no trânsito. São milhares de vidas ceifadas por conta da falta de cidadania do motorista. Muitas vezes o automóvel é instrumento de poder nas mãos de pessoas descompromissadas com a vida. Em abril do corrente ano, a Organização Mundial da Saúde promoveu a Primeira Semana de Segurança no Trânsito e constatou que as maiores vítimas são os jovens, os quais dirigem embriagados ou sob o efeito de entorpecentes e sempre andam em grupos, o que contribui para ocorrer várias mortes em um único acidente. Constatou-se, também, um aumento de 72% das mortes no trânsito em municípios com menos de 100 mil habitantes. O que era grave, passou a ser considerado uma epidemia de acordo com o próprio Ministro da Saúde, uma vez que, além das mortes, são centenas de milhares de feridos, o que provoca um gasto astronômico para os cofres públicos. O mundo globalizado, a precariedade do transporte público, a falta de educação e de cidadania e o crescente aumento das frotas de veículos nas ruas são os ingredientes necessários para a transformação de vias e rodovias em campos de batalhas. Somente uma mobilização por parte da sociedade em face dessa realidade preocupante poderá apontar para soluções a curto e médio prazo. Infelizmente, só se sensibilizam aqueles que já sofreram alguma perda, seja com a morte de um ente ou mesmo com amputações ou lesões permanentes. O problema do trânsito é sério e deve ser prioridade na busca de soluções, uma vez que a cada ano tem aumentado o número de vítimas. Por outro lado, o condutor, como cidadão, carece de um pouco mais de responsabilidade, sobretudo, quanto ao fato de dirigir embriagado ou sob o efeito de entorpecentes. Deve entender que as vias públicas não são campos de batalha e nem pista de corrida automobilística, assim como os pedestres, motoristas e motoqueiros não são personagens de jogos de computador, os quais ao serem atingidos vão se ferir ou mesmo morrer e não haverá nenhum meio de alterar a situação como se altera nos jogos. Com a vida não se brinca. Principalmente com a vida dos outros. Os veículos foram transformados em armas potenciais. Dessa forma, todo o cuidado e respeito pelo outro ainda é pouco, pois com o aumento de veículos nas vias aliado à falta de educação a tendência é sempre agravar a situação. Viver em sociedade é uma necessidade da natureza humana e implica em direitos e obrigações. A vida, a integridade física, o direito de ir e vir são valores que não podem ser destruídos na cultura de um povo. É urgente que todos se mobilizem e não deixem que tanta violência seja considerada ‘normal’. NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental

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