Há nove anos, a artesã Genecy Maria Dias, 37, namora o tatuador Tarcísio Batista Costa, 37. Tudo começou em um “barzinho” da cidade. Tarcísio, apaixonado por rock, não perdia uma noite no antigo Tapetá, onde Genecy trabalhava como balconista. A amizade durou seis meses, mas eles não resistiram e o primeiro beijo aconteceu em 18 de fevereiro de 1998. Uma história bonita, porém comum, se não fossem os dois tipos de deficiências que Genecy assume com naturalidade. O problema não proibiu que a vida do casal se tornasse uma história de amor.
Desde que nasceu Genecy não escuta absolutamente nada do ouvido esquerdo. O direito capta apenas 55% dos sons. A debilidade mental leve existe, mas não impede que Genecy faça os cursos de bolo e bombons e deixe de frequentar a Adefi (Associação dos Deficientes Físicos de Franca e Região), onde é professora de artesanato. Tarcísio não tem deficiência. “E isso nunca foi problema”, disse ele.
Ao contrário do que muitos pensam, o casal segue uma vida normal. “Vivemos como todas as outras pessoas. Vamos a festas, barzinhos, trabalhamos”, completa ele. Genecy confirma a rotina agitada do casal, mas confessa sobrar tempo para o romance. “Quando acordo, é ele quem faz o café e traz na cama pra mim”, diz, um pouco tímida. O casal também enfrenta dificuldades, mas agradece por nunca ter sofrido nenhum tipo de preconceito. “Preconceito nós sabemos que existe, mas nunca vivenciamos nenhuma situação assim”, dizem.
Genecy não é a única. Em Franca, pelo menos 31 mil pessoas são portadoras de deficiência, seja ela física, mental, motora, auditiva ou visual. No Brasil esse número chega a quase 25 milhões.
Com uma história de vida parecida estão os jovens, Thalia dos Reis Mantovani, 21, e Marcelo Andrade Moreno, 19. Eles têm Síndrome de Down, um problema genético que prejudica o desenvolvimento intelectual e cognitivo das pessoas, e mesmo assim estão juntos há um ano e dez meses. Eles não escondem o sonho de se casar. “Vamos noivar daqui a uns dois anos e nos casar daqui a dez anos”, disse Marcelo. Thalia confirma, mas aos risos se opõe à idéia de ter filhos. “Criança dá muito trabalho, tem que trocar fralda, dar banho e elas ainda ficam chorando e dão birra”. Eles adoram curtir a vida a dois. Frequentam baladas, pizzarias e não abrem mão de assistir aos jogos do Franca Basquete. “Não perdemos um”, diz Marcelo.
Os familiares do casal encaram o namoro como um direito dos jovens, por isso apóiam o relacionamento e se dizem gratos de vê-los tão felizes. “É muito gratificante conviver com os dois.
Juntos, eles nos ensinam muita coisa”, dizem os pais de Thalia, Regina Mantovani e Edvaldo Mantovani. Com o namoro, os dois se tornaram pessoas mais responsáveis e amadureceram muito. Sem falar na auto-estima que o relacionamento desperta neles”, disse os pais do garoto, Maria Cecília Andrade Moreno e Ricardo Moreno.
A psico-pedagoga da ONG (organização não-governamental) Caminhar, que oferece atendimentos terapêuticos para pessoas com paralisia cerebral e crianças com dificuldade de aprendizagem, Ana Estela Fernandes Checchia, aprova a atitude dos pais do casal e diz que as pessoas com Síndrome de Down, ou qualquer outra deficiência, devem ser tratadas exatamente como as outras. “Esse desejo de se relacionar é do ser-humano. Devemos respeitá-lo independente da pessoa ter ou não deficiência”.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.