Se o governo federal implementar medidas efetivas que tirem as exportações de calçados da crise, o setor retribuirá de imediato com a abertura de 14 de postos de trabalho por hora. A afirmação é do novo presidente da associação nacional dos calçadistas, Milton Cardoso, que é também diretor-superintendente do grupo Vulcabrás.
A Vulcabrás, dos irmãos Grendene, comprou parte da Azaléia na quinta-feira, é agora a maior fabricante de calçados da América Latina e tornou-se uma das maiores empregadoras do país, com 26,5 mil funcionários mesma quantidade que trabalha em todas as indústrias calçadistas de Franca. Horas antes de assumir o comando da Abicalçados, na quarta-feira passada, Cardoso reclamou que não consegue falar com o ministro Mantega (Fazenda e Sítios), apesar das insistência. ‘Ele anda muito ocupado ou não dá importância ao setor’, disse. Entrevistado pelo Comércio, ressaltou: ‘Já fizemos quatro pedidos de audiência e não recebemos resposta. Vamos apresentar o quinto e, se necessário, o sexto.’
Uma das reivindicações que a associação pretende fazer a Mantega é a mudança das novas regras do PIS/Confins, que elevaram os custos tributários do setor em 4,5 pontos percentuais. ‘Para competir (com os chineses, vietnamitas & cia. ilimitada), dependemos de medidas que estão fora das nossas fábricas’, assinala Cardoso.
Em seu discurso de posse, fez um desafio ao governo federal: ‘Dêem-nos um câmbio realista e prometemos gerar 14 empregos por hora, 120 mil por ano!’ Essa proposta significa, resumidamente, que a cadeia produtiva de calçados (na qual incluem-se indústrias de couros, solas, adesivos, metais, ferramentas, máquinas e uma centena de outras) que gera sete empregos por hora no Brasil, poderia dobrar o número de contratações não fosse o câmbio desfavorável.
O exportador vende em dólar e recebe em real. Quanto mais diminui o valor da moeda norte-americana, menor é a sua condição de competir no exterior. Para se proteger das baixas na cotação do dólar, teria de elevar preços, mas não consegue, já que invariavelmente o cliente estrangeiro tem facilidade para trocar de fornecedor e recusa acréscimo de centavos. Isso no geral e a grosso modo. Para esse fabricante, um dólar deveria valer hoje 2,80 reais.
Ao pedir um câmbio realista, a indústria calçadista não será atendida. Ela sabe disso. Dólar depreciado favorece as importações, é uma das ferramentas eficazes para o controle da inflação. Com os juros siderais do País (próximos do Cruzeiro do Sul), que atraem capitais especulativos em abundância, continuará a baixa cotação da verdinha; além disso, ela continua entrando aos montes com os superávits da balança comercial.
O saldo positivo da balança comercial (exportação menos importação) permanece exuberante – de 4 a 5 bilhões de dólares mensais –, impulsionado pelos embarques de minérios, açúcar e álcool (mudou um tiquinho do Brasil Colonial).
Talvez fosse mais proveitoso à indústria de calçados pleitear compensações ao câmbio, concentrar-se nesse ponto, conforme vinha fazendo. É irrecusável a sua oferta de milhares de emprego, em troca da recuperação da sua competitividade no mercado internacional. Se el señor Mantega desrespeita a classe, ao imaginar que no encontro solicitado receberá pedidos de subsídios ou de esmola, que o mande àquele lugar e divulgue do Oiapoque ao Chuí o que seria dito a ele. Terá na opinião pública o aliado que precisa para romper as barreiras palacianas.
GRANDE GERALDINHO
Geraldo Ribeiro Filho começou a fabricar calçados com máquina emprestada, produção de 10 pares diários (somente de um modelo na cor branca) e dois ajudantes autônomos. Trabalhava até duas ou três horas da madrugada e nos finais de semana viajava para vender os sapatos em hospitais e consultórios médicos de cidades próximas e muito distantes.
Isso em 1990. Criou um produto diferenciado, com a proposta de privilegiar os pés do consumidor, oferecendo-lhes conforto, e construiu a Opananken Antistress. É um dos calçadistas da cidade com posicionamento consolidado no mercado. Abrirá mais uma fábrica, até meados de outubro - a Zero Stress, com produção inicial de 300 pares diários de um sapato que será a pérola das suas fabricações, afirma sem revelar detalhes. É gente fina. Sucesso.
NOVO TIME
Filhos de calçadistas da cidade já desempenham funções relevantes nas empresas. Trabalham adoidado, são inteligentes, cordiais e a maioria influi muito nas decisões dos pais. Têm força de boxeador, audácia e demais predicados da juventude. Não citamos nomes porque faltarão vários e você sabe como é, alguém ficará chateado, com razão. É uma força desconhecida, desconsiderada quando se especula sobre o destino da fabricação de calçados em Franca.
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