Recall


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Uma das maiores montadoras de veículos do Brasil anunciou que irá realizar o recall de mais de 2500 veículos fabricados entre os dias 5 e 15 de julho. De acordo com notas divulgadas na impressa nacional em horário nobre, a empresa decidiu pelo recall, pois constatou a redução da eficiência do serviço de uma determinada peça dos veículos em questão. A prática do recall tem se tornado cada vez mais comum no Brasil. Em geral a indústria automobilística é sempre muito competente nessas ações, mas já vimos recall de vários produtos, até de medicamentos. A verificação posterior à produção e comercialização, de algum desvio de qualidade e a conseqüente iniciativa para se reparar a falha e reduzir os possíveis danos é prática moderna, sustentada por legislação clara e evidentemente favorável ao consumidor final. O conceito de recall é oriundo dos modelos mais modernos de democracia, onde o cidadão tem consciência plena de seus direitos e de seus deveres. Pensando nisso e no Brasil de nossos dias, cheio de mazelas éticas e morais no campo da política seria interessante adotarmos a prática do recall de políticos. Imagine se depois de verificarmos a redução da eficiência do serviço de muitos de nossos homens públicos, pudéssemos de maneira clara e evidentemente favorável a nós, cidadãos comuns, realizarmos a substituição dessas ‘peças’ com algum desvio de qualidade. Não seria fantástico? Eu tenho certeza que você disse que seria. Então, por quê não o fazemos? De alguma maneira isso é possível através do voto direto conquistado a duras penas depois de tantos anos de ditadura e autoritarismo. Porém, o exercício do voto livre e direto tem se mostrado pouco eficaz no processo de recall político e os números comprovam a tese. Um grande número de envolvidos em escândalos como sanguessugas, mensalão, caixa dois, dossiê, superfaturamento, voltaram a ocupar cargos públicos graças à votação maciça conquistada junto ao povo brasileiro. É impressionante, mas é a mais pura verdade. Há quem diga que somos uma democracia juvenil e que ainda temos muito a desenvolver e aprender. No entanto o que chama a atenção é a dificuldade de aprender com os erros. Apesar de sabermos que “cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça”, continuamos praticando de forma irresponsável e inconseqüente um ato legítimo - o voto. Temos a nosso favor uma imprensa livre, investigativa, capaz de denunciar fatos aos quais não teríamos acesso não fosse por ela mas ainda assim, o problema é como reagimos após as denúncias. Mesmo com o voto e a imprensa, continuamos inertes, anestesiados, omissos, irresponsáveis. Esse comportamento em relação à política nacional pode ser comparado ao de um cliente que, proprietário de um veículo com defeito, ao ver o anúncio do recall na televisão não vai até a concessionária para fazer a troca da peça com defeito . ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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