Hora de produzir


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Terminada a Francal, é hora de voltar para o chão da fábrica e produzir os calçados vendidos durante a feira. Com raras exceções, a avaliação geral dos industriais é de que foram concretizados bons negócios durante os quatro dias de exposição. Apesar das visitas terem sido menores, os clientes foram classificados como de qualidade. Tradução: compraram. A feira foi boa, é verdade, mas as adversidades enfrentadas pelo setor - que resultam em demissões e fechamento de fábricas - mostram que é preciso ter prudência. Enquanto os sapateiros estiverem atuando na linha de produção, os empresários vão se concentrar em outra frente de trabalho: tentar convencer o governo federal a oferecer condições de competitividade ao setor calçadista nacional. O calcanhar-de-aquiles do segmento continua sendo a baixa cotação do dólar, o que gerou pesadas críticas do governador José Serra (PSDB) - durante a abertura da Francal - ao presidente Lula (PT). “Nós temos sido trouxas em matéria de política econômica voltada para o exterior”. Novo presidente da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), o empresário Milton Cardoso também se irritou ao comentar a questão. “Os economistas radicalmente liberais disseram ao presidente que o Brasil teria um câmbio flutuante. Sou obrigado a dizer que o presidente foi enganado: o que temos é um câmbio afundante. É um câmbio submarino, que só afunda e nunca flutua. Quando ameaça flutuar, é logo bombardeado pela próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central)”. A exemplo do governador, também foi aplaudido de pé. O desabafo foi feito durante o discurso de posse, quarta-feira à noite, no Teatro Elis Regina, anexo ao Anhembi. Ao comentar o quanto a desvalorização cambial afeta as empresas de calçados, Milton Cardoso citou reportagem publicada, há uma semana, pela Folha de São Paulo - de que a cada hora sete jovens são presos no Brasil - e fez um desafio público ao governo federal. “Dêem-nos um câmbio realista e prometemos que o setor gerará 14 empregos por hora, ou seja, 120 mil empregos por ano para esses jovens, sejam eles qualificados ou não. A indústria de calçados os qualificará e os manterá no interior do Brasil, evitando o inchamento das grandes cidades com todas as suas conseqüências”. Milton Cardoso sucedeu Elcio Jacometti no comando da Abicalçados, a mais importante entidade do setor calçadista do País. Ao contrário do francano, que tinha um perfil mais conciliador, o superintendente do Grupo Vulcabrás assumiu a presidência criticando a falta de disposição do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em receber calçadistas para discutir problemas do setor. “Ou ele anda ocupado com outros assuntos ou o setor calçadista não lhe seja muito importante”. Nas primeiras horas de mandato, o dirigente mostrou que será uma pedra no sapato do governo e que não medirá esforços para buscar alternativas de manter a indústria de calçados nacional forte e competitiva. “Repito, dêem-nos um câmbio realista e geraremos estes empregos. O Brasil precisa avançar na empregabilidade e o nosso setor pode ser um grande aliado”.

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