A mentalidade tem que mudar


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O consultor Zdeneck Pracuch durante entrevista que concedeu à chefe de reportagem Priscilla Sales e ao repórter Pablo Santos Pinto no estande do Comércio e da Difusora AM na Francal: “O que falta é refinamento (ao francano)”
O consultor Zdeneck Pracuch durante entrevista que concedeu à chefe de reportagem Priscilla Sales e ao repórter Pablo Santos Pinto no estande do Comércio e da Difusora AM na Francal: “O que falta é refinamento (ao francano)”
<p>Com mais de 50 anos de experiência na área calçadista, o consultor Zdeneck Pracuch é hoje um dos maiores especialistas mundiais quando o assunto é sapato. Em meados do século passado, junto com Wilson Sábio de Mello, foi o responsável pelo desenvolvimento do atual sistema de produção industrial de calçados do Brasil. Já atuou em empresas como a Bata (indústria checa, uma das maiores do mundo), Nike, Samello, entre outras. Pela trigésima vez, ele esteve nesta semana visitando a Francal (Feira Internacional de Calçados, Acessórios, Máquinas e Componentes).</p> <p><br />Para Pracuch, a edição deste ano mostrou que o calçadista francano tem se esforçado para melhorar a qualidade de seu produto, mas que ainda há muito a aprender em termo de design. Segundo ele, o número de empresas que apenas copiam tendências e modelos italianos continua grande.</p> <p><br />O consultor criticou a falta de organização das empresas francanas. Disse que o principal problema do setor na cidade hoje é a péssima gestão empresarial, definida por ele como catastrófica. Recomendou a redução das linhas de produção e mais planejamento e pesquisas de mercado por parte do empresariado antes de lançar seus produtos. </p> <p><br />Para o futuro, Pracuch aponta como caminho para o sucesso apostar nos produtos em couro, originais e que primem pelo conforto dos pés. E avisa: os calçadistas francanos que não mudarem suas mentalidades, não ouvirem o que quer o consumidor e não organizarem suas empresas terão morte certa. “Poucos vão sobreviver”, sentencia. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Que avaliação o senhor faz dos produtos francanos apresentados na Francal?<br />Zdeneck Pracuch-</strong> O que pude perceber é que os calçadistas francanos estão se esforçando para colocar no mercado um sapato original, de maior valor agregado... Um sapato que realmente conquiste o consumidor pelo visual e, principalmente, pelo conforto. Entre as marcas com maior destaque estão a Opananken, Sândalo, Agabê, Sapatoterapia e Pipper. Elas estão produzindo calçados de altíssima qualidade, que poderiam ser vendidos facilmente em qualquer mercado internacional. O que vi nesta Francal é que existem alguns empresários que estão deixando de lado modelos batidos, que funcionaram no passado, onde o preço baixo era o que importava, e investindo em conforto. Esses estão bem e no caminho certo. Uma pesquisa mostrou que apenas 3% dos consumidores se preocupam com o preço na hora de comprar um sapato, 44% querem conforto e 23% se decidem pelo modelo visual. </p> <p><strong>Comércio - Então a palavra de ordem agora é conforto...<br />Pracuch</strong> - Exatamente. O homem que consome quer é um sapato confortável. O empresário tem que respeitar essa tendência, ele não pode se dar ao luxo de ter uma linha de sapatos bonitos e desconfortáveis. Conforto em primeiro lugar e, se isto custar R$ 5 ou R$ 15 a mais na fábrica, isso não quer dizer nada porque, na loja, o sapato sempre é vendido em 3, 4, 5 prestações, vão aumentar dois, três reais por parcela, o que não significa nada para o consumidor. Temos que repensar a maneira de produzir e ter por base a mentalidade do consumidor, ouvir os desejos dele. </p> <p><strong>Comércio - Neste contexto, como fica o design do calçado, normalmente apontado como uma forma de agregar valor e melhorar os lucros das empresas?<br />Pracuch</strong> - Que design? Todos os nossos chamados designers copiam as mesmas revistas, as mesmas tendências italianas... Até hoje a pátria do desenho é a Itália e continuará sendo. Nós estamos sentados na classe econômica neste assunto. </p> <p><strong>Comércio - E o que fazer para mudar isso?<br />Pracuch</strong> - Eu vou lhe fazer uma pergunta: há quanto tempo existe a Arte na Itália? São muitos séculos. Eles têm Michelângo, Donatello, Leonardo da Vinci. O italiano nasce cercado de obras de arte. As cidades, os palácios deles são todos uma obra-prima, merecem ser admirados e inspiram qualquer um a produzir o belo. Agora um modelista que nasce em Franca vai se inspirar no que? O que ele viu? O que ele conhece de arte? A cidade não tem nada, não tem uma catedral, uma obra arquitetônica que mereça ser apreciada, um jardim, um monumento. Um italiano que nasce nas mais pobres condições ainda assim está cercado de arte. Mesmo sem ter uma educação para o design, ele se faz sozinho. Ele aprende a apreciar o belo. Não há como mudar isso. </p> <p><strong>Comércio - Então falta cultura para o francano?<br />Pracuch</strong> - Não é uma questão de cultura. O brasileiro tem sua expressão cultural. O que falta é refinamento, bom gosto... E, infelizmente, isso não se ensina. </p> <p><strong>Comércio - Um centro de design como o que Franca deve ganhar até 2008 pode ser uma solução?<br />Pracuch</strong> - A instalação de um centro de design em Franca é válida sob o ponto de vista técnico. Agora, arte não se pode ensinar. Ela depende de emoção, de sentimentos... </p> <p><strong>Comércio - Se comparado ao italiano, o calçadista francano ainda é só um batedor de prego na hora de produzir o sapato?<br />Pracuch</strong> - Se nós vamos comparar o sapateiro francano com o de qualquer outro país menos a Itália, estamos nos saindo muito bem. Mas quando vamos comparar nosso desenho com o italiano, aí, são duas categorias: uma especial e outra na terceira divisão. Não tem nenhum demérito nisso. Ainda temos muito para correr. </p> <p><strong>Comércio - Muitos calçadistas francanos, neste ano, resolveram investir pesado em linhas mais esportivas, principalmente tênis que foram apresentados na Francal. O que o senhor pensa sobre esta estratégia?<br />Pracuch</strong> - Eu li uma entrevista do presidente da Associação Nacional de Varejo e Distribuição dos Estados Unidos. Ele disse que 70% do calçado vendido naquele país hoje são da linha esportiva e que, de cada dez sapatos esportivos vendidos, quatro são da marca Nike. Então sapato esportivo tem futuro, mas o calçadista tem que ser muito cuidadoso na hora de fazer este investimento. Procurar fazer uma pesquisa de mercado, direcionar seu foco para um público-alvo específico, gastar em propaganda para fixar a marca e trabalhar com couro para não ser copiado pelos sintéticos asiáticos que venderão pela metade ou menos do nosso preço. Quem não fizer essa lição de casa terá jogado dinheiro fora. </p> <p><strong>Comércio - O senhor falou sobre a concorrência asiática. A produção de calçados da China vai engolir a brasileira?<br />Pracuch</strong> - Já engoliu. O chinês ganha do brasileiro no preço e sempre vai ganhar. Não vejo como o empresário pode mudar isso enquanto o governo mantiver a carga tributária no patamar em que está. Para o francano, essa concorrência não é tão forte porque o consumidor dele é o de sapatos masculinos em couro. Esse é um caminho. O sintético é da Ásia, não adianta brigar. Outra opção é investir em artigos diferenciados, de altíssima qualidade, confortáveis, com um preço competitivo. Eu já venho falando isso faz tempo. </p> <p><strong>Comércio - E como conseguir isto?<br />Pracuch -</strong> Em primeiro lugar, enxugando as fábricas e fazendo planejamento. Na minha filosofia, eu digo o seguinte: nosso calçado hoje pode ser comparado aos melhores do mundo, sem nenhum demérito, mas na gestão empresarial somos um verdadeiro desastre. A gestão de empresas entre os calçadistas é catastrófica e calamitosa. Os francanos são ótimos sapateiros, mas não sabem gerir as empresas. Eu encontro empresas em Franca que, quando pergunto como fechou a contabilidade no mês passado, a resposta é “não sei”. Então deduzo que está tudo atrasado. Tem calçadista que espera o final do ano para ver como está a saúde de sua empresa. Isso é uma loucura. No final do ano, ele já está morto, quebrado e sem chances de recuperação. Muitos não sabem sequer o que é capital de giro. Até mesmo firmas grandes, que faturam bem, agem assim. O empresário precisa acordar o mais rápido possível. </p> <p><strong>Comércio - Como o senhor vê o futuro do calçadista francano?<br />Pracuch</strong> - Eu vejo que alguns vão sobreviver absolutamente tranqüilos porque se modernizaram, investiram e se prepararam. Outros ainda têm tempo de reagir. E meu conselho para estes últimos é enxugue, reduza e aumente o valor individual de seu produto. Não adianta querer deixar Franca em busca de incentivos de outros estados e municípios se levar os mesmos vícios francanos, se não mudar a mentalidade. </p>

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