Eleições à vista


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Ano que vem tem eleições municipais. Serão eleitos os prefeitos e vereadores para mais quatro anos. Parece cedo ainda, mas já é hora de se preocupar com o assunto. Deve-se desde já pensar em que tipo de pessoas se quer para tal missão. O eleitor não deve limitar-se a aguardar o dia da eleição e votar nos candidatos inscritos. Precisa, antes mesmo das convenções partidárias e do prazo mínimo de filiação, selecionar os pretendentes, as pessoas que deseja ver concorrendo. Numa democracia é necessário que o cidadão participe do jogo eleitoral desde o início, indicando o perfil do bom candidato e estimulando a candidatarem-se pessoas com tal perfil, sob pena de ter de escolher, na hora de votar, não o melhor, mas o menos pior. Penso que o candidato ideal a prefeito, a vereador precisa ter amor incondicional pelo município e saber que, se eleito, não será dono dele. Quem ama conhece bem e, principalmente, cuida. É necessário também que queira servir ao município e não servir-se dele, nem servi-lo aos amigos e parentes. Precisa ser alguém autêntico, que na campanha e no exercício do cargo se apresente como é, e não como o mandam ser; que não queira passar falsa imagem de si mesmo, nem que se diga capaz de resolver todos os problemas. Na campanha, deve divulgar seu programa de governo; deve também mostrar fatos desabonadores dos adversários, desde, obviamente, que haja prova. Se houver, que os revele. Para o eleitor, é melhor saber antes de votar, e não depois da eleição, quando já não é mais possível mudar o voto. Mas o candidato, ao revelar fatos, deve fazê-lo de cara limpa, às claras, sem esconder-se atrás do anonimato, para que o adversário saiba de quem vem a imputação e tenha a chance de manifestar-se a respeito, e desmenti-la se puder. Não pode ser da índole de um bom candidato lançar delações às escondidas. Mesmo nessas situações é possível agir com ética. Imputações lançadas sob o manto do anonimato acabam esvaindo-se por si mesmas. O candidato ideal não precisa ser perfeito. Não. Pessoa perfeita não existe. Pode ter muitos defeitos, mas que tenha probidade. Não precisa ser simpático nem sorridente, principalmente se a simpatia e o sorriso forem forçados. Na campanha para a Presidência da República, em 2002, perguntado se seu baixo desempenho nas pesquisas não seria motivado pela falta de simpatia, José Serra respondeu que sua mãe o achava simpático. Perdeu a oportunidade de dizer que de um Presidente se deve exigir competência e honestidade, que quem vê cara não vê coração e que não se tratava de eleição a mister simpatia. Há pessoas aparentemente antipáticas, mas decentes e competentes, e que, se conhecidas melhor, acabam demonstrando que a antipatia é só aparente. Do prefeito e do vereador não se esperam milagres. Não precisam ser mágicos, ainda mais daqueles que fazem sumir dinheiro, e antes de dizer o que podem fazer para ajudar, devem mostrar o que fazer para não atrapalhar. O município tem seu ritmo, que o prefeito e os edis devem zelar para que não se quebre. A excessiva burocracia, a demora na aprovação de projetos, na expedição de alvarás, de licenças, etc., são exemplos disso. O governo não pode ser um entrave ao desenvolvimento do município. Nada de desmanchar obras de administrações anteriores e construir outras no lugar só para deixar sua marca, com dinheiro público que poderia ser utilizado em coisas realmente necessárias. O dinheiro é curto e deve ser bem gasto. Há que se evitar atos administrativos ou legislativos prejudiciais à população e à cidade. O candidato não deve prometer o mundo e o fundo; o eleitor está cansado de saber que muitas promessas são impossíveis de cumprir. Pode ser uma pessoa com mil defeitos, mas que não tolere corrupção, esse câncer que aleija o Brasil, conforme diariamente mostra a imprensa, bendita imprensa. O eleitor deve desconfiar do candidato que sempre se preocupa em dizer-se honesto; quem o é não precisa ficar apregoando. Enfim, é hora de procurar pessoas merecedoras de votos. Os municípios precisam delas. E o povo também. PAULO PEREIRA DA COSTA é Promotor de Justiça em Piracicaba

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