Uma breve reflexão sobre o tempo


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Com a licença dos leitores, vamos diversificando os temas, indo e voltando a alguns, na prerrogativa da transformação, na idéia de que somos seres em constante mutação, como já dizia há 25 séculos o filósofo Heráclito de Éfeso, na Grécia: ‘Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo’. Para o filósofo, essa idéia é como a água corrente de um rio: não se pode entrar duas vezes na mesma corrente, pois a cada instante esse rio assume características diversas, seja por uma folha que cai sobre ele, um peixe que nele morre, os ventos que lhe provocam ondulações. Ou seja, não é exatamente o mesmo rio de antes. Curiosidade: Heráclito se dedicou ao tema porque vivia angustiado com a rapidez das mudanças naquele tempo. Imagine se vivesse hoje. E a velocidade com que elas estão ocorrendo é inédita em toda a história da civilização. Se você está comprando nesse preciso momento um computador, um celular ou qualquer outro apetrecho tecnológico que se anuncia como o mais avançado, saiba que no momento em que sair da loja, ele já estará obsoleto. Em recente curso direcionado a gestão de recursos humanos ministrado pela consultoria Gouvêa de Souza, em São Paulo, os dados apresentados sobre o aumento na escala do conhecimento humano e, em conseqüência, as mudanças na humanidade são impressionantes. Ainda que seja um discurso produzido por defensores da economia de mercado, vale refletir a respeito: imagine você todo o conhecimento humano (todos os livros escritos, todas as músicas e obras de arte existentes, todas as descobertas científicas etc.), enfim toda a produção humana até o ano de 1750. Pois bem, estima-se que todo este acúmulo de conhecimento dobrou entre 1750 e 1900. Cento e cinqüenta anos foram suficientes para multiplicar por dois o acervo anterior a esta data. Estima-se ainda que esse volume dobrou mais uma vez até 1950, levando desta vez apenas 50 anos. Acredita-se que em 1975, mais uma vez esse número duplicou. Encurtando toda essa história: hoje em dia, estima-se que a cada 3 anos dobra toda a produção intelectual da humanidade, embora alguns estudos apontem que em 2010, o conhecimento esteja dobrando a cada 80 dias! É claro que o impacto disso foi dramático: mudou nossa noção de tempo e desenhou novas formas de estarmos no mundo. Hoje, não importa mais que horas são, mas quanto tempo nos resta. Se encararmos as mudanças e a necessidade delas é positivo, por outro lado, nos aloca numa cartografia outra, ainda não muito clara. Nesse redemoinho, o sujeito pós-moderno é bombardeado por informações aleatórias que não se constituem num todo. Inseridos na tecnocracia vamos nos estabelecendo pela efemeridade e transitoriedade em todas as nossas relações. O fato de que tudo à nossa volta muda numa rapidez vertiginosa que, humanos, definitivamente não acompanhamos, talvez seja, como foi para Heráclito, o grande mal-estar da civilização contemporânea. SÓ PARA CONTRAPOR Para o teórico José Nilton Machado, especialista em Educação, essa idéia do conhecimento que ‘dobra’ ´é contraditória. Diz ele: ‘é muito difícil falar-se em ‘acúmulo’ de conhecimento, de ‘nível’ de conhecimento. As visões transformam-se, os cenários se reconfiguram, e se no âmbito dos instrumentos da produção tecnológica existe certo consenso sobre a idéia de progresso, no que se refere às relações humanas, às instituições políticas, às artes, ou em geral, à cultura, o mesmo não pode ser dito. Em que sentido se pode comparar o ‘nível’ de conhecimento de Aristóteles com o de um cientista do século XXI? Em que situação, mesmo no cenário científico, seria possível caracterizar-se um progresso linear que possibilitasse uma contabilidade do tipo ‘dobrar’ a quantidade de conhecimento? Como comparar o ‘nível’ da música, ou da arte, em geral, do século XVIII com a dos dias atuais?’ FLIP E GRUPO VEREDAS Estive recentemente em Paraty (RJ), onde pude acompanhar todo o making of da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Evento grandioso, amado por uns, detestado por outros, a Flip já recebeu, sob os patrocínios poderosos da Globo, da Tim, Visa e Unibanco, alguns dos grandes nomes da literatura mundial como Salman Rushdie, Ian McEwan, Martin Amis, Margaret Atwood, Paul Auster, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Nadine Gordimer, J.M Coetzee, entre outros. Esse evento, internacional, já importante no cenário literário, me lembrou, em muito, o francano Grupo Veredas. Mas, raios, o que a Flip tem em comum com o Grupo Veredas? CASA AZUL Para entender isso, precisamos voltar às raízes da Flip, que estão na Associação Casa Azul, realizadora da Festa Literária Internacional de Paraty. A Casa Azul é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que tem por objetivo trabalhar pelo desenvolvimento sustentável de Paraty, atuando em projetos de revitalização urbana e do patrimônio cultural e dos ecossistemas naturais da região e em busca do desenvolvimento das comunidades tradicionais e dos valores da cultura local. Para tanto, no âmbito literário, promove, há anos, muito antes da Flip, oficinas de literatura, rodas de leitura junto à comunidade carente de Paraty, com vistas a descobrir e desenvolver talentos. PODEMOS IR ALÉM A idéia da Flip partiu desse pequeno e despretensioso núcleo, apaixonado por literatura, assim como surgiu o nosso Grupo Veredas - a reunião de pessoas idealistas, amantes das palavras e preocupadas com as mazelas sociais. Só um exemplo de que com boa vontade e apoio uma idéia simples pode beneficiar uma cidade inteira e ecoar além-mar. Atualmente sob a responsabilidade do jornal Comércio da Franca, o Grupo Veredas oferece atividades educacionais a 250 crianças carentes de Franca e pode ir além, se outros se deciderem a se juntar e apoiar a iniciativa com olhos empreendedores que transponham nossos limites de município.

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