O cachorro e o caçador


| Tempo de leitura: 4 min
Quem for ao Teatro do Sesi, neste fim de semana, para conferir o espetáculo Tietê Mais o Riacho do Rabo em Pé, com certeza sairá da sala de espetáculos transformado. Se isto se concretizará, nós não sabemos. Pelo menos é esta a proposta do diretor Dario Uzam, também autor do texto. “Foram seis meses de pesquisas, lendo livros de cultura indígena para escrevê-lo, e tivemos também muita influência de Macunaíma, um dos livros mais importantes para a nossa cultura. Depois disto, o texto nasceu em duas noites, veio que meio pronto”, afirma o idealizador do projeto da Cia Articularte, que será apresentado hoje e amanhã, às 16 horas, no Sesi. Do elenco da peça fazem parte os atores Fabio Rosa, Alessandra Nascimento, Ailton Rosa e Manfrini Fabretti. A entrada, como sempre, é franca. Em entrevista ao Comércio, Dario contou à reportagem toda a história da peça. Remontado em 2005, o texto premiado em 1980 em curso de dramaturgia pelo Instituto Nacional das Artes Cênicas (INACEN), tem uma rica linguagem que mistura influências caipira, indígena e nordestina. “A peça é consistente, engraçada. Com ela as pessoas se divertem”, comemora o diretor, que afirma ser este um dos momentos mais felizes da companhia. “A grande maioria do nosso primeiro elenco foi para o musical O Fantasma da Ópera (que ficou em cartaz durante dois anos no Teatro Abril, em São Paulo). Com isto, o espetáculo se renovou de uma forma bastante positiva, que agrada ao público. As pessoas dizem que esta é a melhor peça vista no Sesi”, afirma ele. O espetáculo conta a história de dois verdadeiros amigos, que vivem juntos uma grande aventura. Um deles é caçador, o Tietê. O outro, bem... É um atrapalhado cão de caça chamado Riacho do Rabo em Pé. Juntos eles vão se meter em diversas peripécias e aventuras. “Nossa peça tem uma carga cultural importante, que se distancia das montagens que falam sobre o meio ambiente, ecologia. O didático é intelectual. Nossa linha é diferente, temos o teatro como um contato físico, emocional. Nossa intenção é cavucar, estimular, propor coisas ao público e resgatar nossa cultura”, reflete Dario. Na história, Tietê conhece animais diferentes, viaja ao norte em busca de seu amor, a índia Marajó e, de tristeza, acaba virando “um rio de lágrimas”. A história pode parecer dramática aos adultos. Mas às crianças... “A direção foi feita em um tom brincalhão, tragicômica. A busca das crianças é pela diversão, e ao mesmo tempo pela aventura do caçador e de seu cachorro. Juntos eles se metem em brigas. Há uma cena em que o Tietê vai parar em uma discoteca, onde entra em cena um bom maracatu. E no final, o personagem não quer mais brigar e fica triste pois seu grande amor se torna ilha e é dada a casamento ao rio”, afirma o diretor, que completa comentando sobre a reação da platéia, principalmente das crianças. “No final da peça o Riacho coloca fogo na mata e o boitatá se vinga dele. Este momento é o que mais as crianças se manifestam. É sinal de que elas entenderam a peça e que cumprimos o nosso papel”, diz ele. Outro ponto importante da peça é a trilha sonora, que é bem artesanal. Segundo o diretor, ela surgiu de restos de outras trilhas. “Hoje ela ultrapassou o jargão de restos e tornou-se uma das melhores trilhas. Tanto que o público tem elogiado”, revela. Tantos recursos para retratar a trajetória de Tietê, um personagem que é uma espécie de anti-herói, com vocabulário próprio e influência da fala caipira e do linguajar do Nordeste. “Daí comprova-se nossa influência no romance de Mário de Andrade”, afirma o diretor, que em seus 21 anos de carreira, já participou de uma montagem adaptada do livro, na época em que fazia parte do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), núcleo coordenado pelo diretor Antunes Filho, onde fez diversas turnês nacionais e internacionais, trabalhando com grandes nomes do teatro brasileiro, como Luis Mello, e atuando em outros espetáculos como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa. Além de Antunes, Dario também trabalhou com Antonio Abujamra durante três anos. CIA ARTICULARTE A Cia. Articularte, da Cooperativa Paulista de Teatro, tem oito anos de existência. Formada em 1999, é coordenada por Dario Uzam e Surley Valério e tem um repertório bem extenso. “O público pede tanto, que felizmente não conseguimos desmontar espetáculos”, revela Dario. A companhia possui em seu currículo Trenzinho Villa-Lobos, que foi produzido em comemoração aos 120 anos do compositor, A Cuca Fofa de Tarsila, que, além de possuir alguns vídeos no YouTube (site que reproduz vídeos pela internet), foi uma peça com base na qual algumas escolas trabalharam atividades o ano inteiro.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários