Elas estão bebendo mais. O alcoolismo, doença mais comum no universo masculino, começa a adquirir um novo perfil e vitima cada vez mais mulheres. Dados da Secretaria Nacional Antidrogas confirmam maior dependência de álcool pelo sexo feminino. Entre 2001 e 2006, o aumento no número de alcoólatras foi de 13,5% entre elas contra 7,5% entre os homens. Em Franca, não existem estatísticas fechadas sobre o alcoolismo feminino, mas todas as entidades que lidam com esse público - AA (Alcoólicos Anônimos), Caps (Centro de Atenção Psicossocial), Hospital Allan Kardec e Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino) - atestam o crescimento.
Na Amafem, criada há sete anos, a procura de tratamento por alcoólatras cresceu. Em 2002, 13 mulheres se internaram em busca de recuperação. No ano passado, foram 21, num aumento de 61,5%. “É claro que a entidade cresceu e se tornou mais conhecida, por isso somos mais procurados, mas o aumento de mulheres precisando de ajuda para tratar vício em álcool é evidente”, disse Maurício Maniglia, orientador geral da Amafem.
No Caps, a mudança também é percebida. “Ainda por um certo receio, elas procuram menos ajuda, mas notamos que a população feminina está bebendo mais, sim. Os próprios familiares que se tratam no Caps, nos contam que há mulheres viciadas em suas famílias, mas não querem se tratar”, disse a coordenadora Sirlene Barreto.
Maurício, da Amafem, e Edson, do grupo AA, atribuem o aumento à liberdade conquistada pelas mulheres. “Elas se sentem mais à vontade no convívio social e acabam bebendo mais, em exagero.
Com os excessos, podem se tornar dependentes e serem vítimas da doença que é o alcoolismo”, disse Edson. “Elas começam com a cerveja e depois passam para as bebidas de dose, principalmente a pinga, que é mais barata”, disse Maurício. O desemprego e problemas familiares, financeiros, profissionais e emocionais também são motivos para buscarem na bebida um refúgio.
A dona de casa LBS, 49, começou a beber aos 15 anos. Depois de perder o filho e a mãe no intervalo de um ano, entrou em depressão. “Aí eu enveredei no mundo das bebidas. Perdi o controle. Cheguei num ponto que só ficava bêbada, não comia direito, só bebia e dormia. Passei dias só com pinga e água. Fiquei pele e osso. Tomava um litro de pinga por dia, sozinha”, disse. “Bebia para esquecer os problemas, ficar alegre”.
Depois de 34 anos dependente, LBS decidiu procurar ajuda. Faz quatro meses que está em recuperação na fazenda da Amafem. “Demorei muito a aceitar me tratar. Só vim tratar porque eu e meus filhos estávamos sofrendo muito. Vi também que do jeito que eu estava, o único recurso para mim seria a morte. Fiquei com medo de acontecer algo pior comigo”, disse ela, que é de Jardinópolis.
Entre as mulheres, LBS é uma exceção. A população feminina ainda resiste em buscar entidades para lutar contra o vício. “Elas se sentem envergonhadas em assumir o problema. Mas precisam perder isso. O serviço existe na cidade e é gratuito. Estamos aí para atender os dois sexos”, disse Sirlene. No Centro, dos 106 atendidos, 13 são mulheres.
No AA, a história se repete. Dos 250 pacientes, há seis usuárias. “Elas ficam constrangidas de falar de seus problemas perto dos homens. Estamos programando montar um grupo de reuniões só para mulheres, sob coordenação delas para facilitar a adesão”, disse Edson.
ALERTA
O médico Wagner Ribeiro alertou os alcoolistas dos riscos que correm. Segundo ele, a dependência do álcool induz à hipertensão, provoca intoxicação do fígado que pode desenvolver cirrose hepática, prejudica o intestino, provoca pancreatite e destrói células neurológicas. “As substâncias impregnam no sistema nervoso central e matam as células, isso contribui com o envelhecimento precoce”.
Durante a gravidez, além dos danos ao organismo da mãe, o bebê também pode ser afetado. Crianças de mães alcoólatras correm riscos de nascer com má-formação e propensão a cirrose hepática. “Os efeitos nos dois sexos são semelhantes, mas no caso das mulheres, se agrava quando há gestação”. Para Maurício, homens e mulheres precisam estar conscientes do perigo da bebida. “O álcool é a droga mais difícil de ser vencida. É legalizada e está em todo lugar. A tentação e pressão da sociedade para consumir são muito altas. É difícil evitar. A sobriedade vai depender da pessoa”, disse Maurício.
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