Era uma de nossas primeiras reuniões. Conselheiros do jornal Comércio da Franca, estávamos cheios de energia e disposição. Reunidos ao redor da mesa no eterno prédio do Comércio a temperatura subiu quanto o tema foi a capa de uma das edições, onde em pose nada confortável sobre uma escada repousavam as curvas de Ana Paula Oliveira, a bandeirinha de futebol.
Não foram poupados, editores, diretores, repórteres, todo declarados como inimigos da moral e dos bons costumes. “Isso não é imagem que se publique na capa de um jornal sério, responsável e com uma história como a do Comércio da Franca”, alguém disse exaltadamente.
Passaram-se alguns meses, e pronto. Está aí, nas bancas, para quem quiser ver e apreciar, ela, Ana Paula Oliveira, nua, como veio ao mundo. Chiachiri Filho disse que sente muito por não terem as fotos uma versão alto-relevo. Ele é realmente genial.
É engraçado como algumas coisas agridem e depois passam a ter uma outra conotação, digamos assim, um pouco mais, socialmente correta. Peguei-me pensando nisso por causa da capa do garoto ‘Rei do Furto’. O jornal recebeu várias manifestações, está publicando democraticamente tanto as prós como contras, mas mesmo assim o assunto não muda.
Como conselheiro, recebi telefonemas, visitas e até alguns correios eletrônicos de leitores ávidos por explicações.
Mas, por que a polêmica? O garoto não existe? Não cometeu os crimes? Não continua solto em função da legislação? Por que então incomoda tanto a nós, francanos de bem, defensores dos bons costumes, das leis, da ordem e da moral? Seria o fato de reconhecermos a existência dele em nossa cidade? Ou seria a incômoda sensação de omissão?
Na verdade, eu também não sei; mas que incomoda, incomoda. Pior que isso, deprime, nos enjaula, nos deixa cada vez mais paranóicos.
Mantendo-se a história recente, estamos correndo o risco de encontrar um dia o ‘Rei do Furto’ estampado em capas de outros jornais e até de revistas de circulação nacional.
Dizem que algumas águias constroem seus ninhos no alto das montanhas com espinhos secos e bem afiados e sobre eles coloca um pedaço de couro para então depositar seus ovos e repousar seus filhotes. Quando chega o momento dos pequenos pássaros irem à luta, a mamãe águia retira com o bico o pedaço de couro do ninho e incomodados pelos espinhos os filhotes são praticamente obrigados a aprender a arte de voar.
Outros exemplos menos poéticos, relacionados a aprender a nadar por exemplo, poderia ilustrar o que quero dizer: será que a capa do menor no Comércio da Franca não quis tirar o couro do nosso ninho?
O problema será o quanto isso nos incomodará lá, no amanhã. Afinal de contas nada é mais perecível que notícia de jornal diário, principalmente se pouco ou nada fizermos para corrigir nossa eterna rota em direção ao caos.
ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca.
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