Lavar, passar, varrer, cozinhar. Lavar de novo, passar mais uma pilha de roupas, varrer mais uma vez e cozinhar para a próxima refeição. A rotina é cansativa. Os elogios, raríssimos. Remuneração? Não existe. Mas elas estão lá, todos os dias, dispostas a deixar o ambiente da família impecável. Elas são donas de casa, sim, e daí?
Faz mais de 20 anos que Regina Maria Augusto, 48, trocou o balcão de uma grande rede de lojas para cuidar da casa. Durante quatro anos, trabalhou como auxiliar de caixa no Magazine Luiza, mas depois de se casar e engravidar, deixou o registro em carteira para ser dona de casa. “Após o casamento, trabalhei por mais três meses. Quando fiquei grávida, pedi demissão. Minha mãe e sogra eram doentes e não tinham como me ajudar a cuidar do bebê. Preferi me dedicar à casa e minha família”, disse.
Regina não trabalhou mais. Nos 25 anos de casada, nunca contratou faxineira para limpar sua casa. “Sempre fiz tudo. Gosto de cuidar das minhas coisas”. Para dar conta do recado, costuma fazer uma faxina mais pesada de 15 em 15 dias e conservar a casa limpa nos demais dias, o que significa varrer, passar pano no chão e tirar o pó todos os dias, além da lavagem das louças e banheiros. As roupas são lavadas duas vezes por semana. “No sábado de manhã nem posso sair. Meu filho que mora fora chega com a mala cheia de roupas para eu lavar”. A máquina facilita o trabalho.
Regina lida muito bem com os afazeres domésticos. A dona do lar se acostumou com a rotina e gosta. “Hoje que meus filhos estão criados até penso em fazer alguma coisa, mas meus filhos questionam ‘pra quê?’”. Diz que não sente falta da remuneração. “Meu marido é motorista de ônibus. Somos muito bem resolvidos em relação às finanças: dividimos”.
Nos momentos de lazer, Regina costuma organizar excursões para Caldas Novas ou Termas dos Laranjais e participa de cultos na igreja evangélica.
O casamento e a chegada dos filhos também mudaram os planos de Lenir Santos, 47, que gostaria de ter se formado em Direito. Há 25 anos, ela vive para cuidar de seu lar. Desde que se casou, não trabalhou mais fora de casa - ela era vendedora. “Meu marido preferiu assim. Depois, logo vieram meus filhos e não quis deixá-los com empregada. Acho que as avós não são obrigadas a olhá-los. Eu mesma o fiz”, disse ela, mãe de duas mulheres de 24 e 18 anos e um garoto de 13. “Tentei ter babá, mas não me adaptei. Na verdade, acho que é difícil encontrar alguém que cuide com o mesmo zelo que a gente da casa e das crianças”.
Lenir Santos já se acostumou com o “batidão” de ser dona de casa. Em dias de passar roupas, acorda às 5 horas, com disposição. Na casa dela, no Parque Progresso, tem de cuidar de dez cômodos no sobrado da família. “Há dias em que fico uma hora catando bagunças pelos quartos, sala, cozinha e banheiros. A gente lava as louças e, de repente, a pia já está lotada de copos novamente. Tem horas que o serviço cansa, pois é muita rotina, não tem remuneração, mas respiro fundo e sigo em frente, feliz. Afinal, faço pelos meus filhos e marido”, disse.
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Para facilitar, a dona de casa divide os serviços por dia. Ah, ela não gosta de deixar a louça do jantar acumulada. “Lavo tudo à noite”. No corre-corre, Lenir se esforça para encontrar um tempinho para se cuidar. “É corrido. Tenho de acelerar para achar uma hora para cuidar de mim, fazer as unhas, pois quando saio, gosto de estar cheirosinha, bem arrumada, bonita. Nem sempre consigo”, conforma-se.
Lenir se sente recompensada pela dedicação ao saber que os filhos estão bem. “Vivo para eles. Quero que sejam felizes”. Ela comenta a importância da sua presença em casa e a proximidade com os filhos. “Tenho amigas que conseguiram se formar, trabalham fora, ganham bem, pagam ajudantes para cuidar dos filhos, mas têm muitos problemas com eles. Eu não vivo isso.
Meus filhos são comportados, amorosos, família. Minha presença em casa é importante para isso. É a melhor recompensa”.
FAXINA: UMA ROTINA
Moradora na Vila Europa, dona Neusa Miranda, 52, é outra mulher que não pára. A limpeza da casa é feita todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Ela lava e passa roupas, varre, passa pano, arruma as camas, lava banheiros de duas a três vezes por semana e cozinha. “Com crianças, as coisas não param limpas”, disse ela, que costuma servir quatro netos no almoço em sua residência.
Até quando trabalha fora para ganhar dinheiro, Neusa fica envolvida em afazeres domésticos. A única diferença é faxinar a casa dos outros e receber por isso. “De vez em quando, trabalho de doméstica. Mas faz tempo que sou do lar. Quando jovem, com uns 15 anos, já ajudava minha mãe em casa. Gosto do serviço doméstico e quero ter esse dom até Deus se lembrar de mim e me levar embora. Faço tudo com muito carinho”.
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