<p>Carrões, mulheres e dinheiro. Esse tripé, comum a profissionais do basquete americano, não seduz nem faz parte da vida de Helinho, armador do Unimed/Franca. Na temporada em que disputou as finais de todos os campeonatos de que participou, o jogador se disse feliz. Não pelo glamour de sua profissão, mas pelo objetivo alcançado após semanas de renúncias. Festas, shows, encontros familiares. Nada disso contou com a presença do armador de 32 anos. </p>
<p><br />Campeão Paulista e vice do Brasileiro e da Liga Sul-Americana, Helinho falou ao Comércio antes de viajar para a Europa, sonho de sua mulher, Cristiane. A conversa aconteceu em sua casa, mas bem que poderia ter sido tomando garapa na feira, uma das preferências que mantém. “Sou um privilegiado por jogar basquete e defender o time da cidade onde nasci, tendo como torcedores familiares e amigos com os quais cresci”, disse. Irritação ele demonstra só quando fala de Nezinho, Alex e Arthur, adversários para os quais perdeu o título nacional. “Eles não souberam ganhar”, disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Após uma temporada com quase 90 jogos, um título e dois vice-campeonatos (Paulista, Brasileiro e Liga Sul-Americana), como você está?<br />Hélio Rubens Garcia Filho</strong> - Realmente, a temporada foi muito cansativa e a mais longa da minha vida, mas também uma das melhores de que pude participar. Isso se levarmos em conta meu desempenho pessoal e do grupo. Tivemos momentos dificílimos com até quatro jogos por semana. Mas este foi o grupo mais unidos de que já participei. Posso dizer que todos os jogadores, jogando bem ou mal, estavam sempre treinando com afinco. Essa foi a razão de suportarmos a carga de jogos. </p>
<p><strong>Comércio - O que você gostaria de ter feito e não fez?<br />Helinho</strong> - Várias atividades. Houve um show do Victor e Léo, aqui em Franca. Eu queria ir, mas não pude porque estava viajando. Teve dia em que meu grupo de amigos combinou de sair para jantar, tomar uma cervejinha e eu não pude porque eu tinha treino na manhã seguinte. </p>
<p><strong>Comércio - E o que achou sua mulher?<br />Helinho</strong> - Ela é minha parceira e sabe que por causa da profissão tenho de estar em casa mais cedo, pois preciso daquele descanso. Ela sempre foi extremamente compreensiva. </p>
<p><strong>Comércio - Você irá recompensá-la?<br />Helinho</strong> - Nós faremos uma viagem para o exterior. Algo com o qual ela sempre sonhou. Vamos para Paris, na França. Hoje, me considero um privilegiado por jogar basquete, que é o que mais gosto de fazer, na minha cidade e tendo como torcida pessoas que me viram crescer. </p>
<p><strong>Comércio - Mais que jogador, você é francano. Por isso impediu que os jogadores de Brasília levassem a bola após a decisão do Nacional? Aliás, já teve vontade de dar um murro no Nezinho? <br />Helinho</strong> - Já. Eu não tenho sangue de barata. Ele e outros jogadores, principalmente, dessa equipe de Brasília provaram não ter maturidade para disputar uma final de Brasileiro. Eles poderiam sair daqui aplaudidos de pé, como muitas vezes nós fomos em outros lugares. Franca tem uma torcida respeitosa, desde que a respeitem. Eles perderam o respeito e a partir daí, têm de arcar com as circunstâncias. Acabou que eles não levaram a bola, não levaram redinha, não deram volta olímpica. </p>
<p><strong>Comércio - Esportista profissional é rico?<br />Helinho</strong> - Não. Particularmente, gosto da frase que meu pai usa: “Ganho mais que preciso, mas menos do que mereço”. Preciso cuidar bem do que ganho, pois senão quando eu parar terei dificuldades. A vida de um atleta é complicada. Ganhamos salários por 11 meses (em times estruturados). Não temos férias, 13º, Fundo de Garantia, nem mesmo registro em carteira. É apenas um contrato. </p>
<p><strong>Comércio - Você já tem 32 anos. A idade pesou nesta temporada? Teve problemas?<br />Helinho</strong> - Não. Isso até me surpreendeu. Acho que o grupo estava tão concentrado no que queria que, por incrível que pareça, essa foi a temporada em que o time menos sofreu com contusões. </p>
<p><strong>Comércio - Já planejou o fim da carreira?<br />Helinho</strong> - Não. Prefiro ir jogando. Por ter um tipo físico leve e me cuidar fora da quadra, posso prolongar um pouco minha carreira. Mas a partir do momento que que o corpo não responder ao que a cabeça pensar, é melhor parar. </p>
<p><strong>Comércio - Dê um exemplo.<br />Helinho</strong> - No dia em que eu não conseguir sair de um bloqueio correndo, deixando o marcador para trás e já arremessando. Hoje eu executo movimentos que antes não fazia. Isso é conciliar o físico à experiência. Meu pai sempre fala: “Você está trabalhando, fazendo o correto? Faça, que as coisas acontecerão de forma natural”. </p>
<p><strong>Comércio - Quantos anos seu pai tinha quando você nasceu?<br />Helinho</strong> - 34. Comércio - Então ser pai é algo próximo?<br />Helinho - (risos) Tomara. Eu penso em ter dois filhos. Minha mulher fala em três, mas prefiro, no máximo, dois. Minha mãe diz que educar um filho é uma das coisas mais difíceis com que ela se deparou na vida. Está de bom tamanho. </p>
<p><strong>Comércio - Seu pai é perfeccionista. Ser filho do Hélio Rubens é difícil? <br />Helinho</strong> - Já foi pior. No início da minha carreira eu sentia mais isso. Conforme ganhei maturidade e espaço, essa pressão de ser filho dele diminuiu muito. Nós conseguimos dividir bem esse lance de pai, filho, técnico e treinador. </p>
<p><strong>Comércio - O que sentiu quando descobriu que seu pai diminuiu o tamanho da cesta com que você brincava quando criança?<br />Helinho</strong> - Isso é engraçado. Foi um lance do meu pai e do meu tio Totô. Eles viram que eu ganharia visão de cesta. Não acho que tenha sido fundamental, mas me deu uma ajuda. Na hora que ele me falou eu já estava jogando de uma forma legal e levei numa boa. Mas se ele me fala isso antes ... </p>
<p><strong>Comércio - O Helinho nunca foi do tipo rebelde?<br />Helinho</strong> - Não. Sempre estive envolvido no esporte e meus pais me deram escolha. Antes de jogar basquete, treinei tênis, fui campeão regional de natação, joguei futebol. Depois comecei a evoluir no basquete. Acabei seguindo essa carreira naturalmente. </p>
<p><strong>Comércio - Sempre foi treinado pelo seu pai? Quando se tornou um atleta mesmo?<br />Helinho</strong> - Com 15 anos eu me federei (foi inscrito na Federação como atleta de um clube) e meu técnico era o Wangão. Antes treinei com o Raul, Chuí, Guerrinha, Carlão. Depois foi o Michel Cury. Quando eu estava no segundo ano do infanto, a maioria dos jogadores foi jogar no Dharma e receber por isso. Eu queria ir, mas meu pai me perguntou: “Você quer ir jogar infanto ou jogar basquete”? Como todos foram embora, o Franca Basquete passou a ter só o juvenil. Um ano mais novo, passei a integrar a equipe e ganhamos o campeonato do interior. Eu fui para os Estados Unidos e o time venceu o Estadual. Quando voltei, passei a integrar o juvenil e me destacar. </p>
<p><strong>Comércio - Cursar Educação Física, como você faz atualmente, é uma preparação para suceder seu pai como treinador?<br />Helinho</strong> - Eu não diria isso. É uma preparação para eu poder exercer uma profissão na área e no esporte de que mais gosto. Ser treinador é algo que tenho de pensar bem. Meu pai sempre abdicou de muitas atividades e penso se desejo isso para mim. Mas como é algo que gosto, não descarto. </p>
<p><strong>Comércio - Você é jovem. O contato com o público feminino não te dá problemas?<br />Helinho</strong> - Às vezes recebemos cartinhas, bilhetinhos, mas sei como lidar com isso. </p>
<p><strong>Comércio - O Helinho, ao longo da carreira, fez o estilo Renato Gaúcho (que teria transado com uma garota no banco de reservas de um estádio de futebol) ou Kaká, que declarou ter casado virgem?<br />Helinho</strong> - Acho que sou um meio termo. Não faço estilo nem Kaká, nem Renato Gaúcho. São dois extremos. Desde que estou com a Cris procuro seguir uma conduta correta. </p>
<p><strong>Comércio - Como surgiu o apelido Cocão?<br />Helinho</strong> - O Juninho (Corrêa Neves Júnior, diretor-executivo do Comércio da Franca) me falou que foi em uma viagem que fizemos para São João Del Rey, se não me engano. Estávamos em uma caverna e bati a cabeça em uma estalactite. Alguém falou que era próprio de quem tem cabeça grande. Há quem fale que quando eu era criancinha, um amigo me chamou de cocãozinho. Eu prefiro que me tratem por Helinho. </p>
<p><strong>Comércio - Já foi conferir no espelho ou não?<br />Helinho</strong> - (risos) Eu já olhei, mas procuro nem ficar pensando. Fui conferir, mas falei “não é possível que eles estão me achando assim”. </p>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.