Somos seres moldáveis


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Portanto, trazendo feito bagagem todas as nossas vivências - boas ou más - digeridas e entranhadas, vamos forjando - a ferro e fogo, é verdade - a nossa singularidade. É pela experiência que nos tornamos únicos (e tão interessantes). Se há o vazio dos finais, das rupturas, o término de uma relação, a sensação de que acabou o amor, há também a chance de recomeço na mesma relação ou de que esse amor, como substância independente renasça pois de um outro modo. Esse processo só pode ser alavancado a partir de você mesmo e geralmente se inicia de onde mesmo se espera: numa esperança, nas delícias dos pequeninos prazeres, das simplicidades luminosas: é amando-se a si mesmo que você prepara o terreno para que o amor germine novamente, como em Guimarães Rosa: ‘É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado’. O problema, neste aspecto, é o condicionamento sem mediação. As mulheres, desde pequenas, são culturalmente adestradas para acreditarem no amor, de preferência o romântico, bem idealizado, aquele dos príncipes e das princesas em cenários cor-de-rosa e azuis, cavalos brancos e palácios. Fomos criadas assim e todo comportamento permeado por essas fantasias foi provavelmente reforçado. Isso talvez justifique nossa persistência nas idealizações. E as menininhas de hoje não fogem à regra, com as Barbies, Polies e seus castelos pink. FORJADAS PARA O AMOR Ainda que tudo aponte para o contrário, que as decepções nos arrasem, nós, mulheres, temos a tendência de nos agarrarmos num verdinho qualquer de esperança, prontas a acreditar na pureza e na sinceridade do amor, que podemos ter conhecido por relances, lampejos rápidos, ou em toda intensidade. O amor é a nossa Terra Prometida, o nosso Cálice Sagrado, o local onde nos soltamos frouxas, vulneráveis, irracionais. Como poetizou lindamente Manoel de Barros, “lugar sem comportamento é o coração”. Procuraremos sempre o ‘Homem Certo’, mesmo que tenhamos acabado de sair de um casamento com o ‘pior’ dos homens. A desilusão, no campo do feminino parece ser algo transitório. Mais do que amar, queremos ser amadas e podemos tropeçar feio. Em observação jocosa, Lord Byron resumiu: “Na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, na da mulher, é toda a vida”. Homens e mulheres, temos que assumir: somos fisiologicamente e psiquicamente, bem diferentes. O que é muito bom. Cultura do Cinismo Duas matérias publicadas pelo Comércio chamaram a atenção. Uma trazia na capa um jovem de 17 anos se declarando, todo falastrão e orgulhoso, ladrão de motos, usuário de drogas, contraventor, enfim, que, além de gostar dessa vida, sai impune, por ser menor. Alistado por bandidos de maior idade, ele alardeia suas habilidades. A outra matéria, também notícia de capa, traz a foto de mulher de 43 anos algemada, bem vestida, de óculos escuros, presa por tentar instalar em um orelhão dispositivo para ligações gratuitas de qualquer duração, o conhecido ‘gato’. Autoproclamando-se ‘rainha da gambiarra’, ela explica que consegue pegar qualquer atalho ilegal, diz que só bebe uísque e campari, que homem, para ela, tem que ‘ter’ (dinheiro) e não acredita na sua prisão. PUBLICIDADE & GERSON Como disse uma vez o psicanalista Jorge Volnovich, nós, brasileiros, saímos do discurso da vitimização e caímos num discurso cínico. Se o leitor seguiu atentamente as duas reportagens acima mencionadas, constatou que além de debochar da ineficácia da Justiça, na certeza da impunidade por seus comportamentos anti-sociais, ambos ainda aproveitaram os spots e flashes, seus minutinhos de celebridade, mesmo que na coluna policial, para fazer publicidade de suas habilidades, como quem anuncia, jocosamente: ‘precisando, estamos aí’. Exatamente como faz Renan Calheiros e seus bezerros fantasmas achincalhando a credibilidade do Senado, como faz Antônio Palocci ao furar a fila do aeroporto congestionado de gente. De alto a baixo, é a velha e manjada Lei de Gerson, a do hediondo ‘jeitinho brasileiro’ mais presente do que sempre. Ou Macunaíma, o herói sem caráter, criado por Mário de Andrade na tentativa de definir a identidade nacional na década de 20. MACUNAÍMA E GERSON Os personagens Zé Carioca, de Walt Disney, e Macunaíma surgiram quando a vinda dos imigrantes europeus contribuía para um novo modelo de nação. Pensava-se, na época, que mão-de-obra importada era muito melhor que a nacional. Muitos defendiam que a miscigenação brasileira trazia dos escravos a ojeriza ao trabalho e dos índios a preguiça. Daí a tentativa de compreensão da malandragem, uma espécie de contraponto ao exército de trabalhadores dedicados e produtivos vindo do hemisfério Norte. O malandro refletia o imaginário de um país de alma escravista como uma espécie de resistência ao modelo europeu fleumático. Era astuto, esperto e vivia de ‘expediente’, além de dar um ‘jeitinho’ em tudo. Sua expressão mais agressiva desemboca na década de 70, e seu marco é o comercial do cigarro Vila Rica. Nesse período, se pensava o nacionalismo em parâmetros bem diferentes dos anos 20. Havia um ufanismo geral e uma espécie de megalomania alimentada pela ditadura militar. Nesse contexto, um herói nacional como o tricampeão de futebol Gerson, em tese, um exemplo, solta sua frase mais famosa, que virou jargão de definição da identidade nacional: “Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?” A Lei de Gerson se transformou no símbolo mais explícito da falta de ética que assola o País.

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