“Ética no Conselho? De qualquer modo não haverá quem consiga responder a essa indagação. Se o último presidente do Conselho de Ética do Senado é acusado de ter praticado irregularidades contra o interesse público no Tocantins, num desvio de verbas federais orçadas em mais de 20 milhões de reais, nada mais resta a acrescentar. O que o político brasileiro entende por ética parece ser o mesmo que os povos bárbaros entendiam por pilhagem.
Compensa a essa altura divagar a respeito da Ética e recordar algumas teorias sobre o tema. De acordo com alguns estudiosos, há na filosofia ocidental três opiniões para origem da Ética. A primeira é a ‘Teoria da Ética do Divino Comando’, a qual defende que a Ética tem origem em Deus, uma vez que tudo o que é ordenado por Ele é naturalmente bom e ético. A segunda, defendida por Platão, é a ‘Teoria das Formas’, o qual entende que existe uma forma independente, fora de Deus, que é o ‘padrão absoluto de moralidade ética’, o que não explica muita coisa, tendo em vista que a humanidade está presa no espaço-tempo e baldada de apreender esse padrão num período tão curto de existência. A terceira opinião entende que, em meio a tanta diversidade cultural, não é possível estabelecer um padrão ético-moral que englobe todos os indivíduos e todas as raças.
Dessa forma, a Ética é relativa às circunstâncias, povos e culturas, o que impossibilita um padrão absoluto de moralidade.
Nesse pensamento linearizado existem grandes probabilidades de o pensador ser conduzido ao erro. Primeiro, ‘Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom’ e não pode ser confundida com a Moral que muda de acordo com os costumes e o contexto histórico. Segundo, Ética é propriedade do caráter e seu objeto de investigação contempla tanto a virtude quanto o vício. Alguns filósofos entendem a Ética grega mais como poética e estética, sobretudo, quando se trata de viver uma vida bela e boa. A ética individual corresponde ao que Weber chama de ‘ética da convicção’, a qual estabelece limites nos relacionamentos entre os indivíduos, tais como não roubar, não matar.
Já a ética na política se refere basicamente à ‘ética das responsabilidades’. Muito mais abrangente, sobretudo, porque o político trabalha com aquilo que não lhe pertence, ou seja, lida diretamente com a coisa pública. Obrigatoriamente terá de estabelecer liames entre o interesse da maioria e o interesse de algumas minorias, o que implica em tomar decisões que atinjam o interesse público, mas que muitas vezes podem não ser éticas nem morais. Maquiavel defendia que ‘os fins justificam os meios’, ou seja, se o interesse da maioria tivesse assegurado, não importariam os meios pelos quais fossem conseguidos. O pior é que nem maquiavélicos os nossos políticos são. Tudo o que fazem sempre procuram satisfazer os próprios interesses. É a poética e a estética do bem viver pessoal.
Se o dinheiro que se arrecada nesse país através de impostos fosse empregado corretamente, não haveria miséria e a desigualdade social cairia em níveis gritantes. Não é normal o que está acontecendo. Não é possível que o cidadão fique inerte e conformado. Ninguém precisa acreditar que a nossa realidade é essa mesmo. A realidade não é o que parece ser. Essa avalanche de escândalos oculta em suas profundezas coisas que vão mudar o conceito de política, de político, de leis e de república para sempre. Pode ser o prenúncio da barbárie pós-moderna ou o alvorecer de um novo modelo civilizatório.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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