‘Vida Loka’


| Tempo de leitura: 3 min
O Comércio da Franca veiculou matéria no dia 27 de junho, cujo título foi, ‘Ele tem apenas 17 anos, mas pode tirar seu sono’. Há que se respeitar aqui as diversas impressões que desencadearam as opiniões. Manifestações torrenciais apontaram para uma possível “apologia ao crime”, quando importante espaço (incluindo a capa do jornal) buscou abordar o fato com profundidade e isenção. Ficou uma pergunta no ar: será que os produtos da sociedade, reprovados por ela, devem ser varridos para debaixo do tapete? Acho que a grande maioria pôde acompanhar o caso envolvendo aquela criança carioca, João Hélio, que foi arrastada até a morte, com participação de um menor. Os delinqüentes com maioridade penal que também participaram do crime, além da condenação judicial, sofrerão ainda medidas punitivas pela ação covarde, pois no código da marginalidade, a violência perpetrada contra João Hélio é inconcebível e de tolerância zero. Entretanto, o menor-participante no crime terá tratamento diferenciado, chegará à instituição correcional com status de “general” graças a seu alto grau de periculosidade - no linguajar do crime “aquele que tem sangue no olho”, representando o futuro da marginalidade-dominante, já demonstrada a sua capacidade em delinqüir com frieza e destemor. O cerne da questão a ser alcançado não é o da publicização (pela imprensa) dos casos envolvendo “menores”, e, sim, a vocação do indivíduo para o crime, mesclado ao ambiente em que vive, que tanto pode aflorar nas classes mais baixas, como naquelas mais abastadas; produtos da sociedade, portanto! A veiculação de casos envolvendo menores na mídia não pode ser confundida em incentivo a outros jovens a iniciar no mundo da crime - pois é preciso vocação até para ser bandido! Governantes e legisladores, eleitos para estabelecerem políticas públicas funcionais, tanto no âmbito educacional, como no da segurança pública, falham veementemente em oferecer resolubilidade educacional que cause transformação ao indivíduo. Mas, quem disse aqui que o crescimento da criminalidade e a falência educacional não interessariam a alguns... Caso o sistema educacional funcionasse proporcionando conhecimento e transformação; caso a marginalidade fosse estancada de fato; quais seriam as promessas de campanha que os nossos políticos apresentariam? Se assim fosse, ocorreria um esvaziamento nas propostas em áreas vitais da sociedade que não provocariam persuasão no eleitor, tampouco convencimento para a capina do voto. Portanto, ficando sob suspeição alguns em dar manutenção ao cenário atual pela deseducação e insegurança, instituindo o ‘periculum in mora’ sobre as medidas cruciais que evitariam tantas mortes e episódios traumáticos para os que olharam nos olhos do crime e ficaram aterrorizados. A filosofia da bandidagem caminha muito próxima a fatores existenciais-empíricos-sociais, demonstrando certa lucidez para enfrentamentos, assumindo os riscos com consciência, mesmo que de maneira simplória e atabalhoada, porém agressiva e tenaz, em estilo desafiador perante aquilo que na forma, pode ser perfeito, mas que de fundo é hipócrita e de estruturas apodrecidas - e eles já descobriram, estão descrentes e cada vez menos respeitosos... Na letra da música ‘Vida Loka’, do grupo de rap Racionais Mc’s, é possível notar o espírito de revolta que a voz da periferia revela daquilo que lhe resta, que é a atitude, frente a tudo que oprime sua vida, miserável talvez, mas seu único patrimônio, a ser defendido com seu instinto de sobrevivência. Habitando sutilmente nas entrelinhas da letra, a indiferença pelos paradigmas sociais considerados injustos e do desprezo pela liberdade: ‘(...) a mãe dos pecado capital é a vaidade, mais se é para resolver, se envolver, vai meu nome, eu vou fazê o quê se a cadeia é pra homem, malandrão eu, não, ninguém é bobo, se quer guerra terá, se quer paz, quero em dobro (...)”. RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários