Claricinda, talento reconhecido


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A sensível pintora da Apae, Claricinda Maciel, se destaca por suas obras expressivas e com estilo baseado em formas delimitadas e marcantes
A sensível pintora da Apae, Claricinda Maciel, se destaca por suas obras expressivas e com estilo baseado em formas delimitadas e marcantes
Ela é meiga, atenciosa e tranqüila. Quando o assunto é artes, detalhista, exigente e muito, muito talentosa. Claricinda Maciel, 64 anos recém-completados, tem a sua habilidade em pintar quadros reconhecida a cada dia. O fato dela ser portadora de deficiência mental e aluna da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Escepcionais) é cada vez menos relevante. Prova disso foi a sua classificação em primeiro lugar em um concurso de artes nacional realizado na cidade de Sales Oliveira no mês de maio. Apesar de suas condições de saúde, Claricinda concorreu em pé de igualdade com os demais participantes. A organização do concurso “José Antônio da Silva”, que integrou uma semana cultural na cidade, só ficou sabendo que ela era portadora de necessidades especiais ao comunicar o resultado do concurso à direção da Apae. As obras premiadas, um auto-retrato e um cenário rural intitulado Buscando Lenha, foram concluídas em apenas cinco aulas. Em seu auto-retrato, Claricinda desenhou e pintou uma cena em que ela figurou como personagem de uma matéria publicada no Comércio da Franca, em junho de 2006. A professora de artes da Apae de Batatais, Maria Cleusa de Mello, a Maclau, confirma que as fotos do Comércio foram a inspiração. A aluna reproduziu quase fielmente a cena, mas com um detalhe especial: incluiu os seus próprios pés, que não apareceram na foto publicada. De acordo com Maclau, essa é uma característica marcante da artista. Pinta seus personagens de corpo inteiro e dedica atenção especial aos calçados. “Quando se analisa desenhos e o aluno não pinta os pés, normalmente pode estar associado à insegurança. Acho que ela é bem segura”, afirmou a professora. Não é a primeira vez que ela retrata a realidade de forma fascinante, com o livre uso da imaginação. Há cerca de seis anos, ela retratou a visita do padre Antônio Maria à Apae de Batatais e seu talento passou a ser reconhecido por um número maior de pessoas. Antônio Maria ficou parado em um dos corredores da entidade, conversando com as pessoas e havia muita gente ao seu redor. É isso que mostra o quadro e é, segundo os funcionários, o que “parece uma foto”. Pela conquista do primeiro lugar no concurso, Claricinda recebeu R$ 1.400 em dinheiro e, de quebra, ainda terá um salão em sua homenagem em Sales Olivera, onde ficarão expostas as obras premiadas e outras que escolher. “Ela terá um salão só dela na próxima edição do evento, em 2008. Os estudantes da cidade fazem a decoração do local, que é ambientado com música clássica o tempo todo. Cerca de 20 cidades participam”, disse a professora de artes. Em estado de graça, com a pouca expressão oral que tem e por meio de gestos, Claricinda mostra que está feliz e apresenta orgulhosa as suas obras. “Ela é organizadíssima e racional. Tem noção como teria uma criança, sabe que ganhou o prêmio. É um anjo”. O reconhecimento não pára por aí. Menos de um mês depois, Claricinda ajudou a entidade e levar mais um título. A obra Mulher com Lamparina, feita em acrílico sobre painel, em estilo primitivista, conquistou o primeiro lugar na categoria artes visuais no Festival Regional Nossa Arte, realizado em Casa Branca (SP). A Apae participou de cinco modalidades e obteve o primeiro lugar em artes cênicas, dança folclórica, artesanato e artes visuais. Maclau disse que, inicialmente, Claricinda desenhava e pintava figuras que via em revistas. “Ela estava sempre copiando, nunca criava”. Foi quando a professora passou a orientá-la a fazer as suas próprias criações. “Observando-a, rapidamente percebi que ela era primitivista ou ‘naif’ (ingênua em francês). Um segmento artístico que surgiu do pós-impressionismo, caracterizado por um ingênuo anti-naturalismo e pela simplicidade e espontaneidade de suas representações, recordando as das crianças ou a dos povos primitivos”, disse Maclau, citando o francês Henri Rousseau (1844-1910), conhecido como “Douanier Rousseo”, artista reconhecido mundialmente, cujas obras de Claricinda diz se assemelhar. Sobre o trabalho artístico de Claricinda, Maclau diz que, seguindo as características do estilo naif, suas obras apresentam uma formulação descritiva da qual se eliminam as dificuldades do claro-escuro e da recriação da atmosfera. “Professor nenhum coloca arte dentro do aluno. Professor tira”. NA APAE HÁ 10 ANOS Claricinda e um irmão, João Batista Figueiredo, 61, também portador de necessidades especiais, são assistidos integralmente por profissionais da Apae há cerca de dez anos. Eles passam o dia todo na entidade. Fazem todas as refeições, participam das atividades e no final do dia tomam banho e vão para casa dormir. Eles moram sozinhos em uma pequena casa nos fundos da residência de outra irmã. Com o tempo, a equipe técnica da entidade foi percebendo os dons artísticos de Claricinda, que há dois anos e meio deixou de copiar desenhos e faz as suas próprias criações. Ela chegou a ter obras comercializadas por R$ 10 mil em leilões da entidade. Às segundas e quartas-feiras, ela passa quase o dia todo no ateliê. Além de pintar, gosta de visitar a Apae Rural, unidade da entidade que fica em uma fazenda.

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