Proliferam as especulações


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Desde a sua formação, em meados de 1940, o pólo calçadista de Franca passa por crises - freqüentes em alguns períodos, espaçadas em outros. Novamente entrou em depressão, aparenta estar à espera da extrema-unção e proliferam as especulações que o conjunto de fabricantes estará reduzido à metade em uma década. Se pudesse, o ideal seria que Franca tivesse substituído o calçado por aviões, carros, computadores etc., fosse hoje um centro produtor de bens com tecnologias avançadas. No entanto, embora pobre na maioria, a indústria calçadista tem uma importância social imensa, porque é intensiva em mão-de-obra e possibilita a contratação de pessoas das mais variadas habilidades ou sem nenhuma experiência nessa fabricação. Por esses motivos, países emergentes têm na confecção de calçados um suporte fundamental para a geração de empregos a trabalhadores sem formação técnica. É um setor que cambaleia no Brasil pela concorrência desigual com os asiáticos e merece apoio, sim, do governo federal, ao contrário do que pensam alguns francanos e burocratas do Planalto. Não fosse essa atividade, que na década de 1950 começou a substituir a cafeicultura e a pecuária na sustentação econômica do município, provavelmente seríamos um rincão sertanejo. Não é sensato imaginar que pelas suas fragilidades o setor deveria ser pulverizado, para acabar definitivamente a freqüente agonia dos que dependem dele, conforme apregoam os rancorosos. Há tempos difundiu-se na comunidade francana que o calçadista torna-se um perdulário quando começa a ganhar dinheiro: ‘Arranja amantes, compra carros de luxo, fazenda, esbanja e quebra’, afirma-se. Houve e ainda deve haver essa ocorrência. Mas nunca foi o comportamento padrão da grande maioria, senão ela teria desaparecido. Não se justifica a permanência desse julgamento. Nos anos de 1980 havia em Franca o triplo das grandes indústrias calçadistas atuais. Esse grupo detinha cerca de 90% da produção, o que possibilitava avaliações seguras do desempenho geral. Agora, as micro e pequenas são quase a totalidade das 700 ou 750 fábricas existentes na cidade. A maioria é desconhecida e tornou-se mais difícil dimensionar se as dificuldades de algumas atingem todo o conjunto. Os próprios fabricantes já não sabem exatamente quem é quem. A crise enfrentada por alguns inexiste em outros. É possível ter uma noção do desempenho do setor em determinado momento, mas não o conhecimento do que ocorrerá no futuro. Enquanto não for realizada uma pesquisa ampla e detalhada da realidade de cada um prevalecerão as especulações, que podem estar corretas ou não. DESEMPREGO A taxa do desemprego no País, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingiu 10,1% em maio, pelo terceiro mês consecutivo. Não recuou como se esperava e atingiu o maior nível do ano. O Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta como causa do desemprego elevado o real valorizado em relação ao dólar, desfavorável às exportações, e o crescimento das importações de produtos chineses. Em seu relatório sobre o mercado de trabalho, o Iedi avalia que o desempenho ruim neste ano deve-se à baixa criação de vagas na indústria: enquanto o total de pessoas ocupadas subiu 2,8% de janeiro a maio, as contratações da indústria aumentaram apenas 1%. ‘A baixa capacidade de geração de emprego pela indústria está associada ao baixo crescimento ou retração dos setores fortemente empregadores, como calçados e vestuário, penalizados pela sobreapreciação cambial e pela concorrência chinesa’, destaca. NOVO CAMINHO O diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Heitor Klein, afirma que um grupo crescente de calçadistas brasileiros aumenta sua participação em feiras no exterior para exportar com marca e distribuidores próprios. Ele acredita que essa iniciativa contornará a defasagem cambial, um dos principais problemas que o setor enfrenta atualmente. ‘O Brasil vem realmente perdendo espaço no segmento da subcontratação (a saída dos calçados com marca de terceiros) e dos grandes volumes, mas vem conquistando posições importantes com produtos de maior valor agregado’, diz Klein. ‘É uma nova estrada que se abre para o calçado nacional.’ A Agabê é uma das empresas que têm conseguido exportar com marca própria. Outras, do Rio Grande do Sul, conseguiram além disso unificar os lançamentos para os mercados externo e interno, reduzindo uma série de custos. Pelos investimentos feitos com promoção internacional estariam colhendo resultados ainda melhores, não fosse o câmbio desfavorável.

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