É impressionante o quanto nós, humanos, temos a facilidade de nos acomodar preguiçosamente nas mais variadas situações deixando o barco navegar solto ao sabor e à inconstância dos ventos. Viver junto pode ser lindo ou terrível. Se antes as mulheres eram obrigadas a permanecer numa união que fosse terrível, hoje, não mais.
Os homens são culturalmente condicionados para o adiamento da resolução dos problemas, por meio de escapismos fúteis e até infantis quando confrontados com as dificuldades do casamento. A ótica masculina do casamento incide sob um prisma totalmente diverso do feminino, mesmo que esse cenário varie muito hoje em dia com a existência de metro e übersexuais - subgrupos masculinos (ou meros modismos) denominados sensíveis e vaidosos .
Ainda para muitos homens, a ausência de cumplicidade, intimidade satisfatória, as afinidades correndo em paralelo, as discussões e brigas dando o tom geral da vida em comum, não são tão desesperadores quanto a iminência de perder o conforto, a segurança, a rotina do casamento.
É corrente entre os teóricos a idéia, que passa longe do sexismo ou das disputas de gênero, de que as meninas iniciam sua vida um passo adiante dos meninos, pelo menos do ponto de vista do desenvolvimento. Elas possuem mais habilidades verbais, perceptivas e cognitivas. Nesses termos, com um instrumental mais adequado para lidar com as questões afetivas, para a mulher parece impensável uma vida feliz sem cumplicidade-intimidade-afinidades. Para a mulher, relacionamento não é esgrima tampouco algum outro tipo de jogo ou esporte como na imagem tragicômica de Helena Ortiz: ‘Observando. Sim. Há as horas de trégua. Quando se afiam as facas’.
Para as representantes do sexo feminino, a saúde da relação é tão importante como o ar que respiram. Mulheres não costumam lidar bem a longo prazo com pendências, com casos mal resolvidos, com aquilo que não foi dito. A mulher tem muito mais facilidade para verbalizar seus sentimentos, mais flexibilidade para procurar saídas, se decide muito mais rapidamente do que o homem, principalmente nos dias atuais. Tendo vida financeira independente, ela pode escolher entre adoecer ou até mesmo morrer numa relação péssima ou aprumar-se e procurar novos rumos, perseguir a felicidade. Embora existentes, as pressões da sociedade sobre a mulher que resolve sair de um casamento são muito menores e mais suportáveis do que antigamente. Na época de nossas avós, a hipótese sequer costumava ser cogitada e, se era, se tratava de uma exceção de coragem a ser apontada.
ESTATÍSTICA
Isso talvez explique o resultado de uma pesquisa recentemente divulgada pelo IBGE, que apontou que nas separações judiciais, a iniciativa é na maior parte das mulheres, com 72% dos pedidos de divórcios feitos pelas mulheres. Obviamente, numa análise mais aprofundada, não é no pedido de separação que se dá a separação.
Na realidade, as pessoas se apartam muito antes disso. De todo modo, estatisticamente, em termos oficiais, é mesmo a mulher que põe um ponto final.
Outra questão é a de que muitas vezes as mulheres são ‘empurradas’ ao pedido de separação. Não raro, e isso é mútuo e humano, empurramos para o outro uma decisão que gostaríamos de tomar; tornamos o convívio insuportável, com atitudes até mesmo degradantes ao outro, para que ele não agüente a pressão e faça por nós o que gostaríamos de fazer.
Alguns homens (mulheres também fazem isso, claro), desejosos da separação mas sem força para dar esse primeiro passo, isto é, assumi-la, comunicá-la à mulher, começam a sair pela tangente, com atitudes estranhas à relação, com alheamento, com desrespeito, com saídas furtivas e/ou excessivas junto aos amigos e, muito freqüentemente, infidelidade.
Para homens e mulheres em geral: o grito contra essas armadilhas pode se resumir em : deixar de ser objeto do desejo alheio para se tornar sujeito do seu próprio desejo. O que não é tão simples quanto parece.
Com a beleza dos delineios poéticos em sua prosa, o cronista mineiro Paulo Mendes Campos falou do fim do amor e renascimento desse sentimento. ‘...às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança (...) a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba’.
FALAR DE EMOÇÕES
Escondido sob o pseudônimo de Mirna - colunista de O Diário de Notícias -, Nelson Rodrigues escrevia sobre sentimentos para leitoras e leitores nos anos dourados do século passado. Muita coisa mudou de lá pra cá, mas o ser humano padece essencialmente das mesmas dificuldades emocionais desde a Grécia Antiga, quando temos registros bem exatos de que como se viviam as questões emocionais. Essa coluna foi criada com o mesmo propósito. Por isso, se quiser contar a sua história, discuti-la, escreva. Sua identidade será preservada. Aliás, você nem precisa revelá-la.
TERAPIA
‘A psicoterapia é, no fundo, uma relação entre o médico e o paciente. É um encontro. Uma discussão entre dois todos psíquicos, no qual o conhecimento é usado somente como ferramenta. (...)O mais que ele pode fazer é aplainar o caminho do paciente, auxiliando-o a conquistar uma atitude que ofereça menor resistência a uma experiência decisiva’. Carl Gustav Jung
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