A história de que a virtude está no meio não vale para a decisão de Lula de definir uma meta de inflação de 4,5% para 2008 e de 4% para 2009. Como se sabe, cabe ao CMN (Conselho Monetário Nacional), ouvido o presidente da República, definir a meta de inflação. Depois, ao COPOM (Comitê de Política Monetária) e ao Banco Central definir a taxa de juros que eles consideram adequada para atingir a meta proposta.
O Ministério da Fazenda queria manter a meta de 4,5% ao ano; o BC, reduzir a meta para 4%. Lula ficou no meio termo.
O que interessava na definição da meta era que induzisse o BC a acelerar a queda da taxa Selic. Isso não ocorrerá por dois motivos.
O primeiro é que, como existe uma defasagem entre a fixação dos juros e os resultados alcançados, o BC sempre poderá apontar fatores imponderáveis para daqui a dois anos para manter intocado o ritmo de queda dos juros. Basta continuar fazendo o que fazem hoje: selecionam as notícias negativas e minimizam as positivas. Meramente através da manipulação dos fatores, levam o cavalo para aonde quiserem.
O segundo motivo é que o BC é criticado se a inflação fica acima da meta, mas é elogiado se erra para baixo. Em qualquer país informado, errar para baixo significa que a taxa de juros utilizada foi maior do que o necessário. O erro teve efeito no crescimento da economia, no emprego, na dívida pública, no custo do dinheiro.
Por aqui, a opinião pública ainda não se tocou sobre o custo desses erros para baixo.
Dois pesos, duas medidas
No ano passado o diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) Sérgio Miguelim foi acusado de ter vazado informações para o mercado a respeito do episódio envolvendo minoritários e a Telemar - em que se observaram movimentos estranhos de mercado pouco antes do anúncio de um episódio relevante.
Havia a possibilidade do vazamento ter sido provocado involuntariamente pelo próprio presidente do órgão, Marcelo Trindade, ao solicitar análises de uma instituição sobre o tema.
Mesmo assim, Miguelim foi exposto a um tiroteio, no qual o próprio Trindade sugeriu que ele se demitisse. Funcionário de carreira do BNDES, Miguelim se recusou. Trindade ameaçou com uma comissão de inquérito. Miguelim aceitou e se licenciou até o término das investigações.
Há poucos dias duas comissões, uma interna, outra externa, o absolveram por unanimidade. E sustentaram que não havia razão nenhuma para ele ter se licenciado.
Na próxima semana, a CVM julgará o caso de Luiz Antonio de Sampaio Campos, ex-diretor do próprio órgão, que era procurador de uma empresa ligada ao Banco Pactual.
O relator será o próprio Trindade, que está de saída do cargo. Ambos são amigos íntimos. Luiz Antonio trabalha no escritório de Barbosa, Müssnich & Aragão. Trindade tem ligações com o escritório. Outro membro da equipe que julgará Luiz Antonio é Pedro Marcílio, que deverá sair junto com Trindade para abrir um escritório de advocacia. O terceiro será Eli Lória, cujo filho é estagiário do escritório de Müssnich.
Estabilidade e Real
Ontem, em palestra para engenheiros, o presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) Luciano Coutinho sustentou que o Plano Real trouxe uma estabilidade precária, ao provocar o aparecimento de grande vulnerabilidade externa, expondo a economia a choques externos freqüentes. Esses choques traziam de volta a inflação, obrigando novamente ao aumento dos juros.
Coutinho chamou o Real de "quase uma falsa estabilização".
Somente a partir de 2005 veio a estabilidade definitiva, em função do "fator China" que permitiu a explosão das exportações e um superávit comercial que fortaleceu o balanço de pagamentos e permitiu o aumento das reservas internacionais, disse.
Coutinho acredita em um novo ciclo de investimentos, que poderá viabilizar crescimento de 5% do PIB. Ponto menos notado em sua exposição foi quando sustentou que, enquanto houver superávit nas contas externas, "a possibilidade de surpresas inflacionárias inesperadas a partir de depreciações cambiais abruptas é página virada". Em outros períodos, com o câmbio extremamente apreciado, economistas insistiam que desvalorizações cambiais trariam de volta a inflação dos anos 80, o que não se confirmou na prática.
FMI
O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Rodrigo Rato, anunciou à diretoria executiva do Fundo ontem que deixará o cargo em outubro, após a conclusão da reunião deste ano de diretores do FMI e do Banco Mundial. Em nota, Rato diz que a decisão foi tomada por "razões pessoais". "Minhas circunstâncias e responsabilidades familiares". Rato foi escolhido para o cargo de diretor-gerente da instituição em maio de 2004. Primeiro espanhol a ocupar a posição, ele substituiu o alemão Horst Köhler, que renunciou ao cargo em março daquele ano para concorrer à Presidência da Alemanha. Rato deveria ficar no cargo até 2009. Sua indicação ocorreu por causa de seus conhecimentos sobre os países da América Latina.
FRIBOI E BNDES
Braço de participações do BNDES, a BNDESPar fará uma capitalização de até R$ 1,464 bilhão na empresa JBS-Friboi, tornando-se sócia da empresa líder mundial no abate de bovinos.
A operação foi aprovada pelo diretoria do BNDES e será feita por meio de um aumento de capital da JBS-Friboi. Os recursos são destinados a quitar a compra do frigorífico norte-americano Swift, adquirido no final de maio por US$ 1,4 bilhão. Além do aporte do BNDES, os acionistas controladores da JBS-Friboi também farão um aumento de capital na companhia, no valor de até R$ 390,2 milhões. Para realizar o aumento de capital, serão emitidas 227,4 milhões de ações da JBS-Friboi de novas ações ordinárias da companhia, pelo preço de R$ 8,1523 por ação. O BNDES informou que não foi divulgada a participação que a BNDESpar terá na companhia.
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