A vida em um barraco


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SÓ NO SOSSEGO - Paulo Cavalcante e Fernando Dantas sentados no sofá observam o seu amigo fiel, o vira-lata Ranjau, que descansa no meio do dia: “Gostamos dessa liberdade”
SÓ NO SOSSEGO - Paulo Cavalcante e Fernando Dantas sentados no sofá observam o seu amigo fiel, o vira-lata Ranjau, que descansa no meio do dia: “Gostamos dessa liberdade”
Sob a poeira, um barraco de apenas seis metros quadrados de tijolo e telha eternit foi transformado em quarto. O chão serve de apoio para o fogão improvisado e aceso com lenha. Uma outra construção inacabada é utilizada como banheiro. Nestas condições, sem energia nem água, vivem os amigos Fernando Dantas, 62, chapa desempregado, e Paulo Cavalcante, 39. O lar improvisado fica no Jardim Centenário, num terreno particular no cruzamento das avenidas Hugo Betarello e Adhemar de Barros. Fernando, mais conhecido como Paraíba - de onde veio -, foi o primeiro a escolher o espaço para morar há cerca de oito meses. Ele diz ter encontrado o único “cômodo” da casa já construído. O companheiro Paulo, nascido na Bahia, veio em 2003 para Franca em busca de emprego e está instalado no terreno com Paraíba desde o Carnaval. Antes, ele dormia pelas ruas da cidade. Dois cachorros também moram no local. São os fiéis escudeiros dos dois: Ranjau e Titio. No cômodo, dois sofás velhos com colchões em cima servem como camas. Num armário velho, são colocados alimentos, além de sacolas com roupas penduradas nas paredes. Na parte externa, há mais um sofá e um banco de carro quebrado, frutos de doações. De móveis, não há mais nada, apenas tábuas de madeira e tijolos empilhados usados como armário. A água que usam para cozinhar, lavar roupas e tomar banho é doada pelo vizinho da frente. Eles armazenam em garrafões de 5 litros e tambores de plástico. Para tomar banho, esquentam em lata de tinta e se lavam dentro do cercado feito com lona preta ao lado do “quarto”. “Não é todo dia que a gente toma banho não. Só quando sobra água”, disse Fernando. Depois de lavadas, as roupas são estendidas na cerca de arame farpado, como a calça, camiseta e cueca estiradas ao sol ontem. Sem banheiro com vaso sanitário, utilizam um prédio inacabado no terreno como tal. Também não há energia no barraco. À noite, dependem da iluminação dos postes da rotatória, velas e lamparinas. [FOTO2] Fernando disse que não tem renda. Paulo consegue alguns bicos como pedreiro. “Trabalhava como chapa, mas tive um problema no joelho e não posso mais carregar peso”, disse Fernando. Para sobreviver, ganham alimentos e roupas da comunidade. “Não sei quem é, mas tem uma mulher que traz cesta básica sempre. Vem de tudo: arroz, feijão, macarrão, óleo. Fazemos almoço e janta todo dia”. Um açougue do bairro doa carnes aos amigos. Apesar de viverem sem condições mínimas de higiene, dormirem num lugar apertado e cozinharem no chão, parece que os dois estão no local por opção. Fernando passa os fins de semana na casa da namorada e já chegou a morar com o irmão dele, mas teve problemas de relacionamento com a cunhada. “Vou ser sincero, tomo umas ‘cachacinhas’, gosto de pinga e minha cunhada e o filho da minha companheira não gostam disso. Preferi ficar aqui para ser livre e não causar aborrecimentos. Aqui é mais fácil, capino o mato, cozinho, busco água, ando tranqüilo”. O companheiro de residência compartilha da idéia. “A vida da gente é sossegada. Quem chega, ajuda. Não usamos droga, só tomamos pinga quando temos vontade”, disse Paulo. Paraíba disse que até moraria num asilo, mas nunca procurou saber como funciona esse tipo de entidade. Os planos dele é se unir à namorada e construir uma casa “para morar separado do filho dela e evitar discussões”. Ele disse que isso deve acontecer ainda neste ano. Paulo pretende ir para Ibiraci, onde diz ter parentes, mas não sabe quando deixará Franca. Enquanto não mudam de endereço, continuarão instalados no terreno baldio, dividindo o cômodo menor de dez metros quadrados e improvisando para se alimentarem.

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