Micróbios e combustíveis


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O álcool brasileiro, etanol, está dando a impressão que é um exemplo para o mundo e que o Brasil será fornecedor deste combustível para todo o planeta. Porém, creio que tudo isso possa ser uma ilusão a durar muito pouco, pois o etanol tem menos energia que a gasolina, em torno de 60%, gasta-se muita energia para produzi-lo, não funciona em motores europeus e americanos, que precisam de nova infra-estrutura para transportar e armazenar o etanol. Competindo com o etanol, surgem três iniciativas norte-americanas que buscam criar e aperfeiçoar microorganismos que produzam biogasolina, bioquerosene e butanol a partir do açúcar, da mesma forma que se produz etanol, sem o inconveniente da destilação para separar o combustível da água, que consome muita energia. A Amyris Biotechnologies, da Califórnia, está desenvolvendo um micróbio que sintetiza um combustível para aviação. Esta empresa já utilizou a engenharia genética para criar outro micróbio que produz um hidrocarboneto que é transformado em artemisinina, uma droga usada para tratar a malária. O mais difícil já foi conquistado, o resto é questão de tempo. Os pesquisadores da Amyris já identificaram uma molécula que poderá ser utilizado como bioquerosene de aviação melhor que o Jet-A, o melhor que existe hoje. O ponto de congelamento do novo biocombustível é de -57º C contra os -40º C do Jet-A, além de ter maior densidade energética, o que permitiria o vôo através dos pólos. Outra iniciativa semelhante é a da empresa LS9, também da Califórnia, e que está usando a engenharia genética para criar uma bactéria que excrete hidrocarbonetos, como a biogasolina, com vantagem na produção em relação ao álcool, já que a gasolina flutua na água, dispensando destilação. Esta empresa recebeu cinco milhões de dólares em investimentos privados. A previsão é de cinco anos para que entre em produção em escala. Já a British Petroleum está investindo quinhentos milhões de dólares em dez anos para desenvolver um novo biocombustível, o butanol. Estão como parceiros nesta investida, a Universidade da Califórnia e a DuPont. O butanol apresenta vantagens sobre o etanol, tem mais energia, cerca de 80% da gasolina, pode ser produzido em uma mesma planta de etanol, ainda é menos volátil e não é tão corrosivo, o que o torna ideal para ser utilizado na mesma infra-estrutura de transporte e armazenagem da gasolina. O mais interessante é que as usinas de etanol podem ser convertidas facilmente em de butanol. A produção de butanol utilizando a bactéria Clostridium acetobutylicum é um processo descoberto em 1916. Não custa lembrar a iniciativa brasileira de bioquerosene a partir do óleo vegetal, desenvolvido no CTA no início da década de 1980 e, agora, ressuscitada pela Tecbio que já foi atraída pela Boing para os Estados Unidos. Importante saber que a demanda de combustível para aviação é três vezes maior que a de gasolina. Só nos EUA, a emissão de CO2 dos jatos corresponde 12%. Isso já é suficiente para mostrar a importância estratégica de se dominar a produção de bioquerosene. A experiência do álcool brasileiro já demonstrou a capacidade de nossas instituições de pesquisa na melhoria da cana e dos processos industriais em trinta anos desde o Pro-Álcool. Porém nada disso teria acontecido se o Estado não tivesse assumido como prioridade. Diante deste exemplo de sucesso da atuação do Estado em pesquisa cientifica e desenvolvimento tecnológico dedicados a uma área especifica, pode-se afirmar que é preciso que os governos e a classe política de um modo geral continuem a exercer seu papel histórico e coordenem medidas para o desenvolvimento de novas pesquisas que incluam, entre outras, o uso de engenharia genética para o desenvolvimento de microorganismos que sintetizem hidrocarbonetos. Do contrário, passaremos de geradores de tecnologia energética para simples compradores. MÁRIO EUGÊNIO SATURNO é pesquisador tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva e congregado mariano

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