Desde o início deste mês, em torno de 70 indústrias de calçados de Franca estão trabalhando apenas três ou quatro dias da semana. Há outra dezena ou mais praticamente inativa, com a produção reduzida a 30% ou 40% da capacidade instalada. Isso em junho, quando deveriam ter encomendas para o Dia dos Pais.
A afirmação é do representante comercial Fernando Castaldini. Ele vende solas, cadarços e palmilhas e assegura que cerca de 70 de seus 100 clientes na cidade passaram a dispensar os funcionários na sexta-feira ou também na quinta. Algumas em todas, outras em parte das semanas do mês. `É essa quantidade enorme, sim`, reitera, diante de nosso espanto. Considera dramático o desempenho atual da maioria dos fabricantes locais.
Paulo Afonso, presidente do Sindicato dos Sapateiros, não confirma nem contesta essa informação. Alega não ter recebido queixa de trabalhadores, que precisam fazer acordo com as empresas pelos dias parados (desconto nas férias, por exemplo). Diz que concluirá um levantamento até amanhã ou depois. O sindicato patronal também não tem essa radiografia.
Castaldini aponta como principal causa da queda de produção a entrada de sapato chinês no País que tem preços muitos inferiores e já compete com o francano de qualidade média.
Acredita que uma centena ou mais dos 750 calçadistas da cidade não sobreviverá à concorrência predatória no mercado interno. Além disso, lhes falta estrutura para exportar, assinala.
O representante comercial faz essa avaliação baseado na sua experiência de ex-fabricante. Durante 12 anos, de 1983 a 1995, foi dono da Calçados L`Stelle, junto com um sócio. Chegou a produzir 1000 pares diários de sapatos de qualidade, teve prejuízos irrecuperáveis com exportações aos norte-americanos, fechou a fábrica, abriu outra menor (150 pares/dia) e desistiu definitivamente da atividade em meados de 2000.
Os cinco anos do recomeço foram de dificuldades crescentes: sempre achatando o lucro na disputa de preços com os concorrentes, ampliando prazos aos lojistas, comprando dinheiro caro dos agiotas legalizados (bancos) e informais para capital de giro... Enfim, ficou na esperança que a situação iria melhorar, até atingir o fim do buraco.
`Foi assim comigo e vejo hoje dezenas de casos que repetem a minha história`, ressalta Castaldini. Ter na fé, a maior motivação para reverter uma situação econômica desfavorável, invariavelmente resulta em fracasso comercial. As regras dos negócios são anticristãs. Se a maioria dos calçadistas francanos `trabalha no sufoco`, agarra-se à esperança de dias melhores, conforme relata esse ex-fabricante, de fato se confirmará sua previsão de que a médio prazo haverá uma redução do agrupamento.
EXPORTAÇÃO REAGE
A produção de calçados em Franca estaria pior não fosse a recente e surpreendente melhora nas vendas externas. Foram exportados 487.321 pares em maio, no valor total de 11 milhões 229 mil dólares. Os embarques e a receita cresceram 2,78% e 8,93%, respectivamente, em relação ao movimento de maio do ano passado (474.118 pares e US$ 10,308 milhões). O preço médio passou de US$ 21,74 para US$ 23,04 - aumentou 5,98% -, segundo o sindicato calçadista.
Pela primeira vez neste ano o saldo foi positivo. Despencara de janeiro até abril em percentuais elevados (de 20% a 39%). Totaliza agora, em cinco meses, 1,045 milhão de pares e US$ 44,726 milhões. Comparados ao mesmo período de 2006 (2,798 milhões de pares e US$ 57,864 milhões), o volume e o faturamento recuaram 26,93% e 22,70%.
As encomendas dos Estados Unidos, tradicionais clientes, permanecem em queda livre (somaram US$ 18,289 milhões, 40,89% da receita total). Em contrapartida, aumentam consideravelmente os embarques para alguns países da América Latina: Venezuela (US$ 4,934 milhões), Argentina (US$ 2,709 milhões), Chile (US$ 1,912 milhão) e Bolívia (US$ 1,112 mi).
Nesses cinco meses do ano, a Venezuela tornou-se o segundo maior comprador do calçado francano. Também crescem os negócios na Alemanha (US$ 1,379 milhão), Colômbia (US$ 976,5 mil), Arábia Saudita (US$ 527,5 mil), Rússia (US$ 401,6 mil), Dubai (US$ 493,5 mil), Emirados Árabes (US$ 247 mil) etc.
VANTAGENS
Os mercados abertos ou ampliados por calçadistas francanos no exterior compensam os antigos negócios com os norte-americanos, que compram grandes volumes mas impõem preço, sua marca e não são fiéis ao sacrifício dos fornecedores em mantê-los quando têm prejuízo pela desvalorização do dólar.
Com os novos compradores na Europa, América Latina e Oriente Médio, esses exportadores passam a vender suas marcas, know-how de fabricação, design e demais importâncias, conseguem agregar valor aos seus produtos. Agabê, Democrata, Sapatoterapia, AnatomicGel, são algumas das empresas da cidade que ampliaram seus investimentos em feiras internacionais ou em agentes comerciais contratados no exterior. Estão conseguindo resultados satisfatórios.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.