Ocupação da Unesp/Franca é sustentada por doze alunos


| Tempo de leitura: 3 min
Na foto, grupo de estudantes da Unesp prepara faixa de protesto. Movimento perde força e pouco afeta dia-a-dia do campus
Na foto, grupo de estudantes da Unesp prepara faixa de protesto. Movimento perde força e pouco afeta dia-a-dia do campus
É difícil enxergar o que o atual movimento estudantil brasileiro tem e entende por ideologia. Se essa categoria de manifesto inexiste nas instituições privadas, obviamente resta tomar as instituições públicas para fazer um palanque tanto aberto a discussões válidas, necessárias e urgentes quanto para algo que cheira a uma certa manobra, um palco de ativismo político partidário, anárquico ou o que quer que seja. A ocupação da sala da vice-diretoria do campus da Unesp de Franca está prestes a completar um mês. Na esteira do que ocorreu com a reitoria da USP, em São Paulo, onde universitários ficaram acampados durante 51 dias, saindo na última sexta-feira, ou em Araraquara, Assis e Ourinhos, esses três campi da Unesp, há algo de justo nas manifestações, mas muito mais de equívocos. Na sexta-feira, um grupo de alunos falou durante uma hora sobre os motivos pelos quais tomaram a sala do professor Fernando Fernandes, vice-diretor do campus local. Garantem que, em 28 de maio, eram mais de 30 ocupantes. Na sexta, foram 12, número justificado por um suposto rodízio dos integrantes. Cinco eram mulheres. Do total que ocupou a vice-diretoria, apenas três são de Franca. A Unesp local tem hoje 1,7 mil alunos. O ponto de discórdia foi o decreto do governador José Serra (PSDB), editado no começo do ano letivo, determinando que as três universidades públicas do Estado (USP, Unesp e Unicamp) declarem suas contas online em um sistema do governo paulista chamado de Siadem. Foi o que bastou. Para alunos, sindicalistas e parte do professorado dessas instituições, tal medida feriria a autonomia das universidades obtida após a Constituição Federal de 1988. Os alunos protestantes de Franca, dos quais a imensa maioria é de recém-chegados à universidade, poucos estão no segundo ano e apenas um cursa o terceiro, reclamaram. A universidade pública não é ambiente dos mais democráticos. Mas da pauta que apresentaram à direção do campus, com 17 reivindicações, pelo menos, 12 foram atendidas. As que restaram, sustenta o diretor da Unesp/Franca, Ivan Manoel, não compete a ele resolver ou determinar. "É uma política de reitoria; são decisões que o reitor toma e eu posso apenas repassá-las, não mais do que isso". No meio desse imbróglio todo, com a possibilidade de uma iminente reintegração de posse apoiada pela Polícia Militar, negada pela direção do campus, mas pairando como um fantasma sobre os manifestantes, os mais desavisados podem até imaginar que se trata de uma aventura juvenil, desarticulada e irresponsável. Mas como disse um funcionário da unidade de Franca, não há nada de ingênuo no movimento. Há contatos freqüentes com lideranças estabelecidas em outras cidades e a participação, opinião e determinações externas são freqüentes. Os alunos sabem e conhecem os reflexos da ocupação, mas estão determinados a continuar. "Nosso movimento não nasceu do nada", disse um dos líderes, que falou ao Comércio. "Desde o começo do ano estamos conversando, realizando assembléias. É, portanto, uma atitude pensada, ordeira e pacífica". O problema é que daqui para frente não há mais o que reivindicar, além do que já foi pedido e o movimento está desqualificado. Nas palavras dos estudantes, que evitaram falar em ideologias individualmente, ainda pesa a desconfiança em relação à direção. "Ninguém formalizou nada com o movimento, por isso continuaremos aqui". O Comércio apurou que, por mais de uma vez, os alunos chegaram a ensaiar uma saída, com o apoio da diretoria, mas voltaram atrás. Vinicius Peixinho, um dos alunos que estão na sala, não falou em desistência, mas sinalizou que a ocupação é apenas um mecanismo de protesto e que, se ela terminar, não necessariamente terminaria o protesto. Para o diretor Ivan Manoel, elogiado pelos alunos por entender que, até o momento, o emprego de policiais é desnecessário, é preciso que os universitários saibam discernir e avaliar o melhor momento para acabar com o protesto. "Quando a força do Direito não resolve nada, o direito da força pode resolver". Alheios à ocupação, os outros mais de 1,6 alunos continuam freqüentando às aulas.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários