Fim da queimada desemprega 5 mil na região


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Rafael dos Santos com o neto Gleison (centro). Em sentido horário: Cleusa, José, Adriano, Mirian e Maria; a família Santos vive do corte de cana
Rafael dos Santos com o neto Gleison (centro). Em sentido horário: Cleusa, José, Adriano, Mirian e Maria; a família Santos vive do corte de cana
Sentado sobre um garrafão d`água, em uma sala sem móveis, apenas com algumas banquetas e uma televisão velha, o trabalhador rural Rafael Pereira dos Santos, 46, lembra com saudade do interior do Piauí, na região Nordeste do País. Sem estudos e com uma condição de vida precária, Santos veio para São Paulo em 2003 tentar a sorte e trabalhar no corte de cana na região de Franca. Há dois anos sem voltar para a terra natal, ele trouxe para São José da Bela Vista toda a família. São nove pessoas, entre filhos, noras, sobrinho, neto e a mulher. Todos os cinco homens da casa trabalham na cana-de-açúcar. Única fonte de renda. A trajetória da família é sofrida e deve ficar pior. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), assinou no começo do mês um protocolo que antecipa o fim da queima da palha de cana de 2021 para 2014, o que obrigará a substituição do corte manual por máquinas. Será a extinção do trabalho de Santos e de mais de 160 mil "bóias-frias" que atuam no Estado, segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar). Cinco mil deles somente na região de Franca, onde funcionam dez usinas. Entre elas: a Batatais, Cevasa, Alta Mogiana, Buriti e Vale do Rosário. Para o governo paulista, o fim da queima é necessário porque a fumaça oriunda da combustão acarreta diversos problemas de saúde pública, como o agravamento das doenças respiratórias. "Está comprovado que a queimada prejudica não só o meio ambiente, como também a saúde pública, por isso existe uma pressão da sociedade para o fim desse processo", explica Ricardo Viegas, gerente do Projeto Etanol Verde da Secretaria de Meio Ambiente. A antecipação, segundo o governo, foi decidida porque a área de plantio da cana aumenta a cada ano, aumentando também os problemas gerados pela queima. Em 2001, as 13 cidades da regional agrícola de Franca tinham uma área produtiva de 63 mil hectares. Cinco anos depois, essa área cresceu para 97 mil hectares, um aumento de 53%. Quem se ajustar às novas regras dentro do prazo receberá certificado de conformidade ambiental e vantagens ainda em estudo. Os demais terão punições que também ainda não foram definidas. "A proposta é que eliminação da queima seja gradativa e tenha todo um acompanhamento e fiscalização por meio da Polícia Ambiental e Cetesb", adiantou Viegas. O protocolo determina que a mecanização seja em média de 25% ao ano, para que em 2010 atinja no mínimo 70%. Para a Unica, que representa as usinas, o processo de substituição dos cortadores por máquinas não será fácil. "O custo é muito alto e ainda demandará uma especialização tecnológica dos trabalhadores e do sistema de cultivo", disse a direção da Unica, por meio da assessoria. Para se ter idéia do impacto financeiro, uma máquina de corte de cana crua custa hoje cerca de R$ 730 mil. Jamil Costa Lima, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São José, acredita que o fim da queima prejudicará não apenas as famílias dos cortadores, mas também o setor comercial da cidade. "É um problema social que já começou. Em anos anteriores, o número de trabalhadores era ainda maior. Houve ano de recebermos mil cortadores. Com o início da mecanização nas usinas da região, essa quantidade caiu para a metade". Em Igarapava, onde 50% da área plantada já é cortada por máquinas, há em torno de dois mil cortadores. Antes, esse número girava em torno de cinco mil homens. "Sem emprego, esses trabalhadores terão poucas alternativas. Retornar para o Estado de origem ou procurar serviço em outra cultura", disse Lima. Prevendo o desemprego, o governo do Estado estuda a implantação de programas para atender essas famílias. "A idéia é capacitar os cortadores a operar máquinas ou mesmo atuar em outras culturas", disse Viegas, sem dar prazos ou investimentos.

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