Muitas características diferenciam uma pessoa da outra, seja no aspecto físico, seja no psíquico. É possível ascender ou destacar-se no meio social, profissional, pessoal por espírito de liderança, pelo talento para certos trabalhos, pela habilidade, inteligência, competência, conhecimento, etc., mas nada se sustenta sem um caráter íntegro, a meu ver, a estrutura psíquica do indivíduo, seu sinal, seu traço mais marcante. É óbvio que não basta bom caráter para ser um sujeito apreciado, pois há outras características necessárias para compor a personalidade. Não vejo, porém, como ter admiração por alguém que, por mais virtudes tenha, não possui caráter íntegro; este, para mim, é o alicerce, a base de sustentação de outras qualidades pessoais. Um bom perfil psicológico depende, portanto, da solidez do caráter.
O caráter é a soma do que pensamos e fazemos. Temos livre arbítrio para pensar e agir. Assim, o nosso caráter se forma com os resultados das nossas batalhas íntimas. Decisões que se tomam perante certos problemas, certas dificuldades, e a forma como se os enfrenta revelam o caráter. Peculiar ao indivíduo de forte caráter é a despreocupação com a reputação, ou seja, com a imagem perante os outros, com aquilo que pensam dele. Disse Napoleon Hill: `Não devemos esquecer que a nossa reputação é feita pelos outros, mas o nosso caráter é formado por nós mesmos. Queremos que a nossa reputação seja favorável, mas não podemos estar certos de tal coisa, pois reputação é algo de exterior, que existe na mente dos outros; é aquilo que os outros acreditam que somos. Com o caráter é diferente. Nosso caráter é o resultado de nossos pensamentos e atos. Nós o controlamos.
Podemos fazê-lo fraco ou forte, bom ou mau. Quando estivermos satisfeitos e tivermos a certeza de que temos um caráter íntegro, não nos preocuparemos com a reputação, pois é impossível que o nosso caráter seja destruído ou prejudicado por qualquer outra pessoa senão nós mesmos` (A Lei do Triunfo, Livraria e Editora José Olympio, ed. 1945, 7ª volume, págs. 163-4).
A força do caráter faz a pessoa agir corretamente não por medo do que vão pensar dela, nem por querer alguma retribuição, mas movida pela convicção firme formada com o cultivo de bons princípios morais. Deve-se moldar o caráter atendendo a um padrão, um nível próprio de exigência que tenha por base a ética, a verdade, a honestidade, o respeito, e não levado por circunstâncias externas, por conveniências. O grande caráter se revela nas situações em que se pode obter alguma vantagem e se recusa, em não compactuar com ações indignas, ainda que se tenha a certeza de que jamais serão descobertas. Ter caráter é ser intransigente em questões que violem princípios morais. Pode-se enganar aos outros, nunca a si.
A falta de caráter revela fraqueza de espírito. Às vezes mostra ingenuidade, como no caso do aluno que não se empenha nos estudos e procura tirar boas notas colando nas provas. A quem enganam e prejudicam senão a si próprios? Caráter anda em falta.
Raras são as pessoas que resistem à tentação de levar vantagem quando surge uma oportunidade. Falta caráter onde mais deveria haver. Quanto caráter têm autoridades judiciais que vendem sentenças? E cartorários que levam propina para cumprir processos em favor de uma das partes? E policiais que se corrompem para deixar agir livres os criminosos que devem combater? E parlamentares que, entre tantas outras safadezas, recebem quantias astronômicas com falsos gastos de combustível?
Quem tem caráter não se deixa influenciar negativamente pelo meio. Ao contrário: tenta mudá-lo. Quem tem caráter joga limpo, sabe perder, cumpre a palavra empenhada, age às claras. É errado prometer presentes aos nossos filhos para que se esforcem nos estudos, para que se comportem bem. Isso atrapalha a formação do caráter deles, pois não se presenteia ninguém por ações que devem ser realizadas por obrigação. Falta de caráter é repugnante, é falta de vergonha na cara. Por outro lado, ter caráter não é motivo para júbilo nem para elogio: é um dever. Ou aprendemos isso de vez e colocamos em prática ou este país será cada vez mais terceiro mundo.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba
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