Síndrome de avestruz


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Mesmo numa época em que as mulheres ocupam fatia expressiva do mercado de trabalho se revezando entre a vida profissional e a domesticidade, numa parcela ainda bastante expressiva daquelas que se casam desaparece o impulso que compele todo ser humano ao crescimento, naquilo que chamarei aqui de síndrome de avestruz, uma espécie de paralisia pessoal, abrindo mão de qualquer atitude em direção à condução e progresso de sua própria vida. É algo como se o lar, principalmente após a chegada dos filhos, se transformasse numa toca a protegê-la. Como se cercando o marido de cuidados práticos a mulher se assegurasse de sua permanência: não crie nem confie nas armadilhas de dependência. Como se se enredasse irremediavelmente na teia de afazeres e preocupações com casa e filhos e se esquecesse de si mesma, transformando-se aos poucos em secretária, contínuo, passadeira, lavadeira, cozinheira, economista, motorista, de seus filhos e marido, tornando-se, em conseqüência uma pessoa frustrada, deprimida, reclamona, não raro, uma chata, cerceada (e cerceadora), cujo único assunto se resume ao circuito casa-filhos-marido, às vezes oscilando entre a megalomania e os mais degradantes sentimentos de inferioridade simplesmente porque viver uma vida em função de outras dá a ilusão de proteção, mas tolhe qualquer possibilidade de individualidade. De que modo reivindicar para si a chancela de ser você mesma se tudo o que faz é viver a vida de outros? Em O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir dizia que o enredamento nas atividades domésticas, com suas tarefas meticulosas e ilimitadas, permite à mulher uma fuga sado-masoquista de si mesma. É a alegoria do príncipe que se transforma em sapo: só que você no papel do anfíbio! A vivacidade e a admiração mútua são os combustíveis do desejo. Criar e recriar modelos de convivência, refazer os contratos (não os cartoriais mas aqueles de fato importantes, os afetivos) para nortear a relação, fazer projetos, inventar novidades. São pontos a serem seriamente considerados para, no caso de ser viúva ou divorciada, começar a considerar, se você não quer ficar sozinha e imagina um envolvimento futuro. O outro extremo também é perigoso. Mulher forte, batalhadora, emancipada, de vida profissional ativa, será que você não conseguiu se comprometer o bastante na relação, escondida no trabalho, hasteando a bandeira da realização profissional? A mesma síndrome de avestruz, ao contrário, se você prestar atenção. Será que você não foi enfática, ainda que involuntariamente, na sua auto-afirmação, deixando transparecer que não precisava dele para nada? Tudo bem que de sua subsistência cuidava você, mas e as necessidades emocionais? Deixou realmente claro o quanto precisava do carinho, amor e amparo emocional que esse homem podia lhe oferecer? A auto-suficiência é outro mito dos tempos modernos com o qual, sem percebermos, nos protegemos tornando o outro inseguro. A interdependência é salutar e pode, por estranho que pareça, ser libertadora: ter alguém com quem contar (não uma muleta) pode ser extremamente prazeroso. Não nos damos conta que em alguns aspectos acabamos por reproduzir o modelo masculino do qual tanto nos queixamos, endurecidas, alheias às delicadezas e sutilezas, aos códigos da contingência amorosa. CRAVING O fenômeno do uso de drogas na sociedade contemporânea reflete toda uma cultura imediatista e anestésica. A drogadição é uma maneira de anestesiar-se, de não-pensar ou de, momentaneamente, não-sofrer. Para a menina que tem caído nas malhas de traficantes, nada mais coerente. Basta uma zapeada nos canais de TV para entender que o negócio é ter prazer: cinestésico, sensorial, sem conflitos, sem comprometimento. Vivemos num mundo que, por exigências de mercado, eleva o hedonismo como objetivo. NO PANCADÃO Assim, para a meninada, ouvir o pancadão ou a boladona, na mesma batida primitiva e ancestral das tribos, sem letra compreensível, sem sentido qualquer, incensado por uma `droga nervosa` e sair por aí, meio em transe, quebrando tudo, sair zonzo, a Deus dará, sem rédeas, sem pensamento que não a vontade, o desejo, o craving quimicamente provocado, raciocinando apenas formas de obter renda para amenizar a abstinência, não parece muito: apenas a radicalização do que a cultura de massas os faz engolir, sem digestão, todos os dias. Transgredir, agora, talvez tenha uma conotação muito diversa daquela da década de 70, por exemplo. O pensamento, a razão talvez estejam se tornando hoje trangressão. CRACK O aumento no consumo de crack, essa droga devastadora por seu poder viciante e por sua toxicidade - basta usá-lo por 3 ou 4 vezes para se tornar um dependente químico para o resto da vida - por exemplo, está tomando proporções assustadoras e tem relação direta com a escalada da criminalidade. As autoridades não vão fazer nada para minimizar esse rombo social de conseqüências incalculáveis já a curto e médio prazos? Só para ilustrar, aqui na região de Franca já há registro de uma criança de 11 anos dependente da droga. Pior que isso, só o fato de ter sido iniciada nessa triste via por seu próprio pai, aquele, que, teoricamente, deveria protegê-la. Em tempo: sim, a dependência química é um fardo que se carrega para o resto da vida, mesmo que se tenha deixado de utilizar a substância.

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