O mercado diz: para ganhar produtividade, tem que ter reformas. Os céticos das reformas dizem: sem reformas, tem que se dar atenção ao câmbio. E "la nave va", sem reformas e sem câmbio.
É inacreditável o grau de irracionalidade desse debate econômico. É um movimento tão cego, que tenho ouvido de algumas boas cabeças que o Brasil deve conformar-se com o câmbio como está e tratar de se especializar em produtos primários.
Às vezes algumas pessoas me chamam a atenção para a excessiva ênfase dada ao câmbio. Vamos entender melhor o que ocorre.
Com a ampliação do comércio mundial, os produtos brasileiros concorrem com os estrangeiros (especialmente os chineses) tanto em terceiros mercados quanto no próprio mercado nacional.
Há dois fatores que definem a preferência por determinado produto: qualidade e preço. Se um produto tem melhor qualidade, marca, tecnologia mais avançada, poderá ser vendido por um preço maior do que um produto inferior. Se não tem esses avanços, terá que competir no fator preço. Oferece um produto inferior, mas o preço compensará para os mercados compradores.
O motor do desenvolvimento é quando empresas conseguem ganhos de produtividade, de inovação, aumentando sua margem de lucro. Aí têm estímulo para investir em mais tecnologia, mais inovação, mais conquista do mercado externo.
O câmbio bate diretamente no preço, e afeta indistintamente os dois produtos.
Suponha um produto que custe US$ 100,00. Com inovação, melhoria de qualidade e marca, consegue-se aumentar seu preço para, digamos, US$ 120,00. Mas se o real se apreciar 20%, todo esse ganho será anulado pelo câmbio.
Com um câmbio competitivo, em pouco tempo a empresa estaria investindo mais e mais em inovação, em qualificação de emprego, em conquista de novos mercados. Com o câmbio, a empresa até poderá sobreviver, mas ficará nanica.
Na outra ponta, a empresa que não conseguiu inovar, que trabalha com margem apertada, quando o câmbio se aprecia em 20% morre ou se torna importadora.
Todo investimento em tecnologia e inovação é bancado em reais. Suponha que uma empresa resolve investir, digamos, R$ 1 milhão, em uma determinada tecnologia que lhe permitirá ganhos de margem de 20%. Em vez de investir em tecnologia, sua concorrente preferirá importar insumos ou componentes acabados.
No momento em que o real se aprecia em 20%, a margem da empresa que investe em tecnologia foi para o espaço. Por outro lado, a empresa que recorre aos importados, terá um barateamento de 20% nesses insumos.
Prevalecem, então, as empresas que aumentaram o índice de produtos importados, ou que passaram a importar produtos acabados. Elas sobrevivem. Mas o que acontecerá com sua natureza?
Como mera montadora, os empregos serão cada vez menos qualificados, tanto para quem tem curso universitário como para o pessoal de menor instrução. Ela perderá qualquer possibilidade de competir internacionalmente, porque o salto para se transformar em empresa competitiva, com desenvolvimento autônomo, foi abortado pelo câmbio.
NUCLEAR
O almirante Othon Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, afirmou ontem que a estatal cogita construir uma central nuclear em São Paulo. A proposta faz parte da retomada do programa nuclear brasileiro, que prevê a construção de quatro a oito usinas até 2030, divididas em duas centrais nucleares.
Outras opções são Minas Gerais e Espírito Santo. O primeiro projeto a sair do papel deverá ser uma central nuclear no Nordeste - em Sergipe ou Alagoas, entre a foz do Rio São Francisco e o Rio Xingó. A previsão é que esta central, que reunirá duas novas usinas de 1.000 MW cada, entre em operação em 2017. Já a central do Sudeste estaria pronta até 2030 com ao menos duas usinas. A definição do local das novas centrais leva em conta a proximidade de rios capazes de permitir o resfriamento dos reatores. A água usada para resfriar os reatores volta mais quente para o local de onde foi retirada e por isso é necessário contar com grande volume de água. Em Angra (RJ), o resfriamento é feito com água do mar. Segundo Silva, os locais cogitados no Sudeste estão às margens do baixo Tietê, em São Paulo, entre Ibitinga e Três Irmãos, às margens do Rio Grande (SP ou MG) e próximo ao Rio Doce, no ES. A proposta mais arrojada é a construção de seis usinas de 1.000 MW cada.
PREVISÃO DO IPEA
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada revisou para cima sua previsão de crescimento do PIB brasileiro neste ano para 4,3%, contra a previsão anterior, de 4,2%, segundo o Boletim Trimestral de Conjuntura, divulgado ontem. A economia brasileira apresentou uma expansão de 0,8% no primeiro trimestre deste ano em relação aos três últimos meses de 2006, segundo o IBGE. A previsão do Ipea para o setor agropecuário é de um resultado abaixo da expectativa inicial. Segundo o Instituto, a expansão no setor deverá ser de 4,5%, contra uma previsão de 6% (o dado original do boletim de março era 4,4%). A indústria deve crescer 4,3%, abaixo também da previsão anterior, 4,8%. Em 2006, houve uma alta de 2,8% no setor. Já o setor de serviços deve expandir-se de 4%, contra a previsão anterior, de 3,6% (em 2006, o setor viu um crescimento de 3,7%).
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