Mulheres e crianças cariocas que circulam por locais de alta incidência criminal são submetidas à revista policial e isso tem causado protestos e denúncias de constrangimento. Não se pode negar que a cena é constrangedora, mas também há que se considerar que o Rio de Janeiro, São Paulo e outros grandes centros brasileiros, lamentavelmente, vivem uma verdadeira guerra urbana. E, em tempo de guerra, o primeiro item a ser suspenso é a garantia plena individual. Abre-se mão de um bem menor para se preservar o maior, que é a vida. Durante as operações, os policiais, no entanto, não devem perder de vista a prudência, o respeito e a polidez para com o averiguado, passando-lhe tranqüilidade e a certeza de que a ação visa separar o joio do trigo, protegendo o honesto e combatendo o criminoso.
No caso específico do Rio, os traficantes, que tomaram de assalto bairros pobres, onde o poder estatal foi omisso, ali implantaram suas “leis” e obrigam as mulheres e crianças a transportar drogas e até arma, justamente por serem menos visadas pela polícia que os chamados “aviõezinhos”. A prática, detectada pelas investigações , determinou atenção especial a esse grupo da população, incluindo-se aí a revista pessoal.
Prova é que as abordagens têm resultado na apreensão de maconha e crack em poder de senhoras, meninas e meninos antes classificados como “acima qualquer de suspeita”.
Em vez de protestar o que é um direito seu as mulheres cariocas deveriam compreender e até louvar a ação policial que, mesmo as incomodando, é desenvolvida com o objetivo de promover sua segurança, tirá-las da escravidão a que são submetidas pelos fora-da-lei. Uma mulher ou criança surpreendida com droga não é, necessariamente, traficante. Na maior parte dos casos, os traficantes as obrigam a fazer o transporte da “mercadoria”, não restando-lhes outra alternativa. Se ficar entendido que, a qualquer momento, podem ser abordadas pela polícia, os donos do tráfico as libertarão e buscarão outros meios de transporte.
Embora seja entendido como necessário e as corporações procurem fazê-lo da melhor forma, o trabalho da polícia sempre gera incômodos e incompreensões. Ninguém gosta de ser abordado, de dar explicações e muito menos de ter suas vestes e veículos revistados. Mas o cidadão de bem há de reconhecer que não existe outro meio de se encontrar o bandido e a ação criminosa que operam em meio ao povo, onde faz suas vítimas. Como se dizia antigamente, ninguém traz estrela na testa que demonstre sua honorabilidade e, mesmo que trouxesse, a estrela poderia ser falsa. Logo, não há como abrir mão do controle que, dependendo da situação, pode ser brando ou rígido.
O trabalho de inteligência policial evita parte das abordagens. Policiais e equipamentos, agindo dentro da lei e, quando necessário, com autorização judicial, fazem o levantamento da atividade criminosa e, com a certeza do delito, executam as prisões. Mas, no tráfico e em outras atividades criminosas de alta capilaridade, com muitos canais, não há como abrir mão do trabalho preventivo, do corpo-a-corpo. Aí surgem as reclamações e até o repúdio.
Ideal seria que as polícias não tivessem necessidade de exercer repressão, atuando apenas como orientadora. Isso, no entanto, está longe de ocorrer. Pode ser, até, uma utopia...
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
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