‘É doloroso constatar que o resultado mais fundamental a que chega a astronomia, depois de milênios de trabalho obstinado, não diz respeito ao que podemos ver do cosmos, mas ao que não podemos ver: a matéria negra’. (Michel Cassé). Os astrofísicos tentam entender a misteriosa matéria escura que permeia o espaço, mas até agora não puderam conhecer a natureza dessa energia, o que já é considerado um dos maiores desafios da Física moderna. Todavia, importa reconhecer que no campo das ciências sociais existe a mesma ‘energia negra’, tão misteriosa quanto a que incomoda os físicos e que os sociólogos mal conseguem identificá-la.
Há um questionamento em torno de tanta efervescência nas sociedades atuais, tanta inquietude e, ao mesmo tempo, tanto conformismo e omissão em relação às questões básicas que envolvem a existência. Michel Maffesoli, em seu livro ‘O Ritmo da Vida”, assegura que há uma ‘recusa do oficial’ e que existe uma atmosfera de ceticismo pairando sobre todas as cabeças, indicando, dentre muitas outras coisas, que a sociedade, ao reconhecer o abismo intransponível entre representantes e representados, quedou-se em profundo desamor pelo sentido que se tem dado à vida. E andam à procura do ‘eterno retorno’, a volta das tribos.
Algumas ciências sociais, como o Direito e a Sociologia, têm procurado acompanhar, de um lado, como ciência normativa e de outro como ciência positiva que estuda a formação, transformação e desenvolvimento das sociedades, de fora para dentro. No dizer de um autor mexicano, existem momentos em que podemos ‘erguer torrões de razões e conceitos’, e outros em que se faz necessário cavar ‘minas e galerias internas’. O momento atual é o último.
Seria o caso de entender o presente sob a óptica do passado. Mas não do passado das sociedades sob o ponto de vista pragmático.
Trata-se do estudo do passado sob uma abordagem da vida ativa, não contemplativa. Acrescentar, sobretudo, a influência que o estudioso exerce sobre o que é estudado. Na contra-mão do pessimismo ambiente está a possibilidade de entender e viver o mundo tal como ele é.
Essa ‘massa escura’ reafirmada pelo recuo da política, pela falta de orientação do saber, pelo conformismo ambiente e, sobretudo, pelo retorno ao mundo das tribos, só será conhecida se houver chance de se embrenhar nos bastidores dos acontecimentos. Essa forma de vida esvaziada de substância, essa falta de ‘paixão revolucionária’, é a falta de paixão pela sociedade. Diz-se que a cidade impõe uma distância psicológica, distância de si mesmo, a solidão moderna. Aqui não se trata de isolamento, mas de falta de relação. A misteriosa modalidade de convivência social atual a qual se relaciona com quem está distante, pela Internet, mas não se dá ‘bom dia’, ao vizinho da casa ao lado.
Há um relato científico que diz que a ‘massa escura’ existente no universo exerce uma pressão negativa e que seu efeito, seria classificado como uma força que age em oposição à gravidade. Na ‘cosmologia negra social’, pode se dizer que essa força age em oposição a tudo o que é novo, tudo que contraria as ‘leis da imitação’. Estamos num processo alquímico, no qual invariavelmente, se extrairá metal precioso de matéria vil.
O ‘ideal-tipo’ de Weber ou o ‘inconsciente coletivo’ de Jung, a expressão pouco importa, o que vale é chamar a atenção para a memória coletiva, na qual se condensam todas as experiências da humanidade, sejam do ponto de vista macro ou micro, as quais servirão de material para quem deseja compreender ‘misteriosos hieróglifos’ que são os atos cotidianos.
O momento é de redescobrir o frescor da vida, a alegria de existir e fazer a diferença, o reencantamento do mundo seja pelas artes, pela música ou pela literatura ou mesmo pela religião, que significa re-ligare, restabelecer a ligação perdida.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, pós-Graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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