Há dois anos publiquei nesta folha um artigo sobre a Missão de Paz da ONU no Haiti (Minustah), criada em 2004 para estabilizar aquela pequena nação recém-saída da guerra civil. Chefiada desde então por sucessivos generais de nosso Exército, a Minustah ainda é alvo de críticas na imprensa, parte da qual a considera uma extravagância, pois não houve agressão ao território pátrio. Pela primeira vez desde 1965, o Brasil mantém milhares de seus soldados servindo em solo estrangeiro.
De fato, numerosas ressalvas podem ser feitas à decisão brasileira de aceitar a liderança da Minustah: o Haiti está fora da América do Sul e, portanto, é alheio ao nosso espaço geopolítico, com a agravante de que o envio das tropas ocorreu sem um prévio Estudo de Situação - tendo em conta o estado de aprestamento das Forças Armadas, a duração e amplitude prováveis da missão, as prioridades mais urgentes na fronteira com a Colômbia, etc. Entretanto, uma eventual recusa arranharia o já combalido prestígio do Brasil como líder regional e sepultaria suas chances de se credenciar a um assento no Conselho de Segurança da ONU. Não há como figurar no seleto clube das nações que decidem sem assumir responsabilidades inerentes a essa condição.
Hoje não se pode negar que a situação do Haiti seria muito pior sem a Minustah, que apresenta um balanço positivo de realizações. O Brasil já investiu US$ 1,3 milhão na reconstrução do país: aprimoramento de cultivos agrícolas com assistência da Embrapa, montagem de uma escola técnica em parceria com o Senai, capacitação da meteorologia haitiana com ajuda da nossa Secretaria Nacional de Defesa Civil, etc. Além disso, os engenheiros militares brasileiros pavimentaram 17 km de ruas e estradas, abriram 13 poços artesianos e reformaram várias praças e escolas. No dia-a-dia, as dificuldades do idioma têm sido compensadas pela solicitude no trato com a população local: “Todo mundo percebe a diferença entre o marine norte-americano e o militar brasileiro”, observou um nativo entrevistado pela Folha de S. Paulo.
Há dois anos, tudo conspirava contra o êxito da Minustah: França e EUA já haviam malogrado ao liderar intervenções semelhantes no país caribenho, a minguada ajuda internacional obrigava o Brasil a bancar por conta própria a despesa das tropas; guerrilhas dominavam as favelas da capital e nossa imprensa periodicamente mostrava soldados feridos, deplorando o “atoleiro” em que o Brasil se metera. “Uma vaga no Conselho de Segurança da ONU e o desejo de liderança na região não justificam o envio de centenas de jovens a uma missão perigosa”, chegou a dizer o Prof. José Augusto Albuquerque. Houve até quem previsse que os brasileiros seriam alvo fácil quando invadissem Cité Soleil. Para surpresa geral, em 7 de março a Minustah sufocou os últimos focos armados, pacificando todas as regiões do Haiti.
Apesar das críticas e calúnias que não se lhe poupavam, nesses três anos o Exército arrancou de si mesmo um esforço incrível, supriu, por sacrifícios sem conta, tudo o que lhe faltava e terminou sua provação com a vitória. Superada esta fase mais difícil, ainda não se sabe quanto tempo exigirá a reconstrução do Haiti em condições que permitam devolver aos nativos as rédeas de seu destino, mas já é inconteste que o Brasil obteve êxito onde grandes potências naufragaram. O segredo pode estar no famoso “jeitinho”, conforme admitiu um jornalista haitiano: “A presença do Brasil é melhor por se tratar de um país latino-americano, sem a visão colonialista dos americanos e franceses”.
Com isso, o Brasil se habilitou definitivamente a ocupar assento no Conselho de Segurança da ONU.
EDUARDO LUCAS DE VASCONCELOS CRUZ é bacharel em Relações Internacionais e mestrando em História pela Unesp, graduando em Direito pela FDF e editor-assistente do Comércio da Franca
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