Há mais de dois anos, o presidente Lula enfrenta a síndrome do “digas com quem andas e eu direi quem és”. Tanto que, para se proteger, recorre ao, hoje satirizado “eu não sei de nada”. Na verdade, Lula não é o primeiro governante a sofrer com a malandragem de amigos e parentes. Só que com Lula é diferente; oriundo da camada popular, possui amigos, parentes e afins igualmente populares. Alguns lhe dão um trabalhão porque são falastrões, outros tentam até usar o colarinho branco que não lhes serve e, muito provavelmente, alguns são malandros de verdade. Mas quem é que não conhece alguém ou não tem pelo menos um parente que se desviou? Certamente não haverá quem arrisque atirar a primeira pedra...
Não compromete o presidente o fato de ter irmãos, compadres, conhecidos ou ex-colegas de trabalho complicados com a polícia e a justiça. O que deve, realmente, ser verificado é se existem relações dessas figuras com a estrutura do poder e se a amizade ou proximidade com o governante facilita ou não seus atos fraudulentos ou anti-sociais. Comprovada a inexistência da promiscuidade, que pode levar a favorecimentos ou até à montagem de esquemas criminosos à sombra do poder, tudo estará bem. O presidente continuará seu dia-a-dia e os amigos contraventores ou criminosos que se entendam com a lei.
O calvário de Lula, diante de tanta safadeza que se tem colocado no seu caminho, justifica a reclamação de muitos governantes e altos executivos nacionais e internacionais sobre a solidão do poder. Assim que assumem, não podem mais viver sem segurança pessoal e nem estar nos locais e com as pessoas que conviviam anteriormente. E quando o fazem, correm riscos dos mais variados; lembram-se do Itamar Franco durante o desfile de carnaval?
Há que se reconhecer no caso de Lula, a sua não interferência pelo menos explícita para livrar a cara dos seus parentes, amigos ou “companheiros” que se desviaram. Mesmo seu compadre tendo dito saber estar sendo monitorado, isso não compromete o presidente, embora sugira, a existência de vazamentos no sistema.
Sem a pressão palaciana, será fácil para o Estado, através de seus instrumentos de controle, verificar quem é quem e o que fez cada um. A Polícia Federal, como órgão do Estado, não de governo, já tem feito a sua parte. Aguarda-se o mesmo envolvimento da Receita Federal quanto ao patrimônio de cada um e, finalmente, a ação enérgica do Poder Judiciário para cobrar as respectivas dívidas, na proporção adequada e legalmente prevista. Não foi o Imposto de Renda que levou para a cadeia o temido Al Capone, nos EUA, durante os anos 30 do século passado?
Importante: além dos parentes e amigos do presidente, a máquina fiscalizadora não pode se esquecer dos outros cardeais da política nacional, estadual e municipal.
A verificação criteriosa de seus negócios e dos daqueles que os cercam poderá trazer à tona muita coisa. Revelará, ainda, como residual, na outra ponta, os políticos honestos, que hoje padecem diante da generalização da ladroagem e dos maus costumes atribuídos ao meio. Toda democracia, inclusive a brasileira, necessita de políticos probos e comprometidos com a causa da nação e do povo, e não pode viver indefinidamente vendo a classe naufragada no lamaçal da vala comum.
Feita a grande verificação, quem conseguir sobreviver terá recuperado o bem que é mais caro a todo cidadão, principalmente ao político: o respeito do povo.
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.