Não são apenas os brasileiros. Calçadistas de todo o mundo reclamam da impossibilidade de concorrer com a China. Os espanhóis, inclusive, queimaram calçados em recente ato público. Todos terão um infarto se desviarem a atenção para o Vietnã, que repete a trajetória chinesa.
O Vietnã tem 85 milhões de habitantes e a maioria absoluta dos operários é muito pobre. O da indústria de calçados ganha cerca de 70 centavos de real por hora menos que o chinês (equiparam-se na jornada de trabalho lamentável) e também desconhece os direitos trabalhistas ocidentais. (Em contrapartida, há milênios essas nações cultuam o respeito ao próximo, têm uma cultura humanística superior e demais vantagens morais e filosóficas, pode dizer algum cínico, desses contemplados com pensão mensal polpuda por terem defendido o comunismo na década de 1970 tomando cachaça em bordel e que são equiparados injustamente aos mortos ou impedidos de trabalhar).
O Vietnã, a exemplo da China, iniciou sua industrialização com calçados, porque essa manufatura ocupa mão-de-obra barata adoidado, é de facílimo aprendizado, dispensa engenharias complicadas, perturbadoras de mentes fragilizadas etc. De uma maneira mais educada, pode-se dizer que é uma atividade econômica onde se paga salário menor e se investe menos em conhecimentos, comparada a várias outras.
Rapidamente, portanto, o Vietnã tornou-se o quinto maior produtor mundial de calçados - em torno de 450 milhões de pares anuais, atrás da China (9 ou 10 bilhões), Índia (2 bilhões, supostamente), Brasil (750 ou 800 milhões) e Hong Kong (700 ou 750 milhões). É o quinto maior fabricante, mas o terceiro exportador (420 milhões de pares, a maioria de tênis, complementada por sapato esporte).
Uma parte dos tênis fabricados no Vietnã é para empresas como a Nike (principalmente), Adidas e Puma, de média a alta performance. Outra é daquele calçado baratinho, descartável, que começa a substituir o chinês, porque este avança aos poucos na prateleira superior, de maior qualidade e valor.
Resumindo o assunto indigesto: o Vietnã é hoje um clone embrionário da China. A curto prazo causará estragos semelhantes no comércio mundial de calçados. Somente no Brasil, a entrada de calçados vietnamitas tem dobrado ano a ano, nos últimos três, segundo a Secex, Secretaria de Comércio Exterior subordinada ao Jorgito, ministro do Desenvolvimento, que considera normal empresa quebrar.
Na Europa, essa entrada tem triplicado anualmente. O diretor-superintendente da Vulcabrás, Milton Cardoso (em julho assumirá a presidência da Abicalçados, associação brasileira dos calçadistas), foi ao Vietnã e voltou preocupado por ter visto fábricas capazes de pulverizar amanhã muitas brasileiras musculosas na aparência.
Enfim, se você é sapateiro operário ou fabricante -, invista nos estudos do seu filho e não o deixe entrar nesse ramo. Ele irá amaldiçoá-lo posteriormente. Desconsidere essa recomendação se não for um sapateiro comum e sim capaz de encontrar oportunidades nas dificuldades sempre crescentes. Desconsidere mais ainda se o seu filho for um desses psicopatas que circulam pelas madrugadas com o bagageiro do carro lotado de caixas de som e tocando coisas no último volume (aí já é caso para internação).
DÁ-SE UM JEITO
As exportações chinesas de calçados de couro diminuíram cerca de 20% a partir de outubro do ano passado, segundo a Federação do Couro e Calçado daquele país. Estavam crescendo em torno de 120% por ano. O recuo decorre das taxas anti-dumping impostas pela União Européia a esses calçados.
Mas os fabricantes chineses não estão preocupados, porque começaram a fazer parte dos embarques pelas regiões autônomas de Hong Kong e Macau. Falando em China, o nosso limão que leva esse nome veio de lá?
PREVENÇÃO
Nessa temporada de frio, com o uso permanente de calçados fechados e meias, aumenta o aparecimento de micoses nos pés. Dermatologistas recomendam as seguintes medidas preventivas contra os fungos: 1) evite usar sempre o mesmo calçado, fazendo um rodízio entre eles; 2) deixe os calçados ventilarem ao sol; 3) jamais use calçados úmidos; 4) enxugue bem no meio dos dedos e use um talco para os pés, caso transpire muito.
SERVIÇO
Se der certo a negociação que estamos fazendo com amigos advogados, para trabalharem de graça, em breve esta coluna passará a atender sapateiros - operários e fabricantes com respostas a indagações diversas sobre Direito trabalhista, comercial e tributário.
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