‘O futuro é a Europa’


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Miguel Betarello mostra sapato da HB em foto de arquivo: empresário defende liberação mais rápida do PIS/Cofins e não acredita em grande ajuda do governo federal para o setor calçadista: “Nem todas as boas inten&c
Miguel Betarello mostra sapato da HB em foto de arquivo: empresário defende liberação mais rápida do PIS/Cofins e não acredita em grande ajuda do governo federal para o setor calçadista: “Nem todas as boas inten&c
<p>Crise, dólar barato, concorrência da China, fechamento de fábricas. As palavras, em voga no setor calçadista, são a principal fonte de preocupação de Miguel Betarello, principal diretor da HB Calçados.</p> <p><br />Uma das maiores empresas exportadoras de Franca, a HB chegou a ter em seus quadros mais de 2 mil funcionários. Hoje, com 580, investe em novos mercados para manter-se atuante no exterior. “O futuro é a Europa”, diz Betarello.</p> <p><br />Ele afirma produzir 2,2 mil pares diariamente em Franca, sendo 1,8 mil exportados para a Europa. “Não há como reduzir mais pessoal. Se reduzir, as instalações ficam muito grandes”, disse.</p> <p><br />Miguel recebeu o Comércio juntamente com o ministro do Trabalho, Carlos Luppi (PDT-RJ), em uma visita à sua fábrica. Entre uma explanação e outra sobre os problemas do setor, concedeu entrevista exclusiva ao Comércio. Veja os detalhes. </p> <p><strong>Comércio - Várias empresas apresentam dificuldade por conta do preço do dólar muito baixo, o que prejudica as exportações. Qual sua avaliação sobre esse cenário?<br />Miguel Betarello</strong> - O dólar alto sempre é uma vantagem para o exportador. Já o dólar barato, ainda mais com uma queda brusca, representa um grave problema. Quando você trabalha nesse mercado, normalmente faz contratos com seis meses de antecedência, numa projeção. Quando fizemos os contratos que estamos cumprindo agora, a projeção para o dólar era de R$ 2,15. Hoje, ele está a R$ 1,90. Isso, para a empresa, é uma dificuldade muito grande, já que não podemos reajustar nossos custos. Muitas vezes você acaba pagando para exportar. </p> <p><br />Na atual conjuntura, nós vivemos na perspectiva de saber como vai ser o futuro. Dizem alguns economistas que o dólar vai chegar a R$ 1,70. Se eu fizer meu sapato a R$ 1,70, não vendo mais nenhum par. </p> <p><strong>Comércio - A HB já foi uma das maiores exportadoras nacionais de calçados e chegou a ter mais de 2 mil funcionários em Franca. Como está a situação da empresa hoje na cidade?<br />Miguel</strong> - Aqui em Franca, estou produzindo 2,2 mil pares de sapato por dia, a grande maioria para o mercado europeu. Daqui, estamos exportando 1,8 mil pares. Para o mercado interno, são 400 pares. Tenho 580 funcionários empregados hoje. Já tive, como você disse, mais de 2 mil. Infelizmente, tive que mudar o cenário, tanto da exportação quanto da produção, até pela fábrica do Ceará. <br /></p> <p><strong>Comércio - Está muito caro produzir em Franca?<br />Miguel</strong> - Em Franca, o custo da mão-de-obra é mais caro, já que os trabalhadores são mais especializados. Se você produz no Ceará, claro que você tem um preço mais competitivo, uma seqüência maior de trabalho, mas essa não é a causa dos problemas do setor em Franca. </p> <p><strong>Comércio - 70% do sapato fabricado pela HB é destinado ao mercado externo. O que fazer para amenizar os prejuízos? Investir no mercado brasileiro é opção?<br />Miguel</strong> - O mercado interno tem seu poder, mas é limitado. Como sempre fomos grandes exportadores e temos um nome construídos com 30 anos de trabalho no exterior, não podemos perdê-lo de uma hora para outra.<br />A perspectiva é que a situação melhore. Até que isso aconteça, estou reduzindo meus custos cada vez mais. </p> <p><strong>Comércio - Uma reportagem recente do Comércio mostrou que as empresas exportadoras têm prejuízo ao exportar. No seu caso, é verdade?<br />Miguel</strong> - Em alguns produtos, sim. Nosso custo de produção, em reais, em alguns casos, supera o preço em dólar que recebemos pelas exportações, especialmente nos contratos firmados com os Estados Unidos. É uma opção que fazemos para não perder o mercado externo até que os preços melhores. Os lucros estão muito pequenos, em alguns casos, não existem. Não é uma situação confortável. </p> <p><strong>Comércio - Exportar hoje está sendo uma aposta de risco?<br />Miguel</strong> - Muito grande. Além do problema do dólar muito baixo, há pouca sensibilidade do governo. Para exportar hoje, você fica com um crédito de impostos. Quando você exporta, você se descredita de todo o PIS/Cofins e do ICMS sobre o insumo que você compra. Esse crédito fica na sua conta. Se você exporta muito, você fica com esse crédito. Ou recebe em benefício, ou em espécie, mas o governo não tem pago. Esse dinheiro significa mais capital de giro.<br />A pior penalidade é ficar com esse dinheiro na conta do governo quando o dinheiro é mais necessário na fábrica. </p> <p><strong>Comércio - A China Assusta muito?<br />Miguel</strong> - A China é o grande competidor do Brasil no mercado mundial. Ainda assim, nossa qualidade é muito superior ao do produto chinês. Além disso, eles levam vantagem na produção, que é, em alguns casos, quase escrava. Mas não acho que é impossível competir com a China. Precisamos modernizar as fábricas e competir no terreno que temos mais chance de ganhar, que é o da qualidade. Também precisamos de apoio, claro, mas todas essas questões são complexas. Não podemos apontar a China, sozinha, como a vilã da história. </p> <p><strong>Comércio - Vamos imaginar que o cenário se mantenha como o que temos observado e o dólar bata na casa dos R$ 1,80. Qual a sua ação? Cortar custos ou diminuir a exportação?<br />Miguel</strong> - Eu estou trabalhando para enfrentar esse cenário. Estamos implementando uma mudança de mercado, dos Estados Unidos para a Europa. O mercado norte-americano não compensa mais. Não paga. Estamos brigando para conseguir um novo mercado, que é mais aberto ao produto brasileiro. Lá, pela qualidade, ainda temos alguma condição de competir com o calçado da China. </p> <p><strong>Comércio - Reduzir mais custos é impossível, então?<br />Miguel</strong> - Os calçadistas, como setor, não tenho mais como reduzir, especialmente funcionários. Estou com o meu limite mínimo. Se eu reduzir mais gente, tenho que mudar daqui. Minhas instalações ficariam muito grandes. </p> <p><strong>Comércio - O Ministro do Trabalho, Carlos Luppi (PDT-RJ), esteve recentemente em Franca e prometeu uma ajuda do governo federal ao setor calçadista, especialmente o exportador. O senhor acredita nisso?<br />Miguel</strong> - Uma opinião bem pessoal...bem pessoal mesmo...se o governo, tanto estadual quanto federal, liberasse pelo menos o crédito de impostos a recuperar que nós temos, já seria de grande valia.<br />Não precisamos nada de desonerar a folha de pagamento, não precisamos de promessa de dinheiro do BNDES, disso e daquilo outro. Se ele, pelo menos, liberasse esse dinheiro, que é parte de nosso capital de giro, já seria um avanço. </p> <p><strong>Comércio - O senhor descarta outros tipos de ajuda?<br />Miguel</strong> - Olha, descartar não se pode nunca. O ministro é simpático e bom proseador, mas a gente sabe que nem tudo é tão fácil assim. Nem todas as boas intenções viram ações concretas. Prefiro ter cautela.</p>

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