Um lugar parado no tempo


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Valdeci Batista que na imagem está com as filhas Stefany e Dalilia
Valdeci Batista que na imagem está com as filhas Stefany e Dalilia
A Vila Primavera, mais conhecida como Chora Nenê, é um lugar que conta com poucos recursos. O vilarejo, que fica no município de Pedregulho, não tem coleta de esgoto, faltam asfalto e áreas de lazer. Mas, para seus 350 moradores, tudo bem. A maioria só tem uma reclamação: a coleta do esgoto que acaba indo para fossas ou escorrendo pelas ruas a céu aberto, o que deixa um rastro de mau cheiro pelo bairro. A boa notícia é que a prefeitura apresentou um projeto ao Comitê Hidrográfico das Bacias dos Rios Sapucaí-Mirim/Grande e aguarda a liberação de R$ 545 mil para executar a obra do Sistema de Tratamento de Esgoto. Quanto ao asfalto, ninguém reclama. Ao contrário, é difícil encontrar quem gostaria que o bairro fosse pavimentado. “Prefiro o jeitinho de roça”, diz a dona de casa Maria de Lourdes Coutinho, que mora no lugar há mais de 20 anos. A reportagem do Comércio esteve no bairro outras duas vezes nos últimos seis anos para contar a história dos moradores. De lá pra cá, praticamente nada mudou. A Vila Primavera é assim. Um lugar simples, de pessoas que levam uma vida pacata sem se preocupar muito com as modernidades do mundo. No entanto, o fato do bairro estar afastado dos grandes centros não significa que os moradores estão alheios ao que anda acontecendo por aí. Não mesmo. Todos assistem a novelas, noticiários na TV e ouvem muito rádio. O último é o preferido. A maioria gosta mesmo é de ouvir música no último volume. Parece até a área central de Franca, onde os lojistas põem música alta e em estações diferentes. O vilarejo com ruas de chão batido tem posto de saúde, escola até a 4ª série, supermercado, creche e um posto de gasolina. Agência bancária só na vila de Estreito (na Usina de Estreito), distante 3 quilômetros. A água é de um poço artesiano com capacidade para 20 mil litros e não há cobrança de taxa. Os moradores também têm opção de pegar ônibus ao valor de R$ 2,60 ou um gratuitamente no início da tarde. O bairro, distante 25 quilômetros de Pedregulho, nasceu na década de 60 com o surgimento da Usina de Estreito. No local moravam os trabalhadores da usina. Aos poucos, a maioria dos usineiros foi embora. Outros ficaram. Osvaldo Isaías de Assis, 54, é um deles. Mora na Vila Primavera há anos. “Quando eu cheguei aqui não tinha luz nem água”. Osvaldo disse que trabalha com controle de zoonoses no bairro. Talvez seja por isso que mora na companhia de dez cachorros. “Sair daqui só se eu ficar desempregado”. A poucos metros da casa de Assis, mora João Batista Araújo da Silva, 44. Ele deixou a Paraíba quando era adolescente e se mudou para São Paulo em busca de emprego. Acabou indo parar no Chora Nenê. De lá nunca saiu. Constituiu família e foi ficando. “A vida aqui é muito boa. Meus filhos estudam, eu trabalho. Pra que que eu vou querer ir embora?”. João trabalha como serviços-gerais para a prefeitura, colhe café, faz de tudo em fazendas da região e também é responsável por cuidar de uma horta do Lions Club. Outro morador antigo é o funcionário público Valdeci Batista, 41. Ele faz questão de frisar que no bairro tem casa própria e tudo de que precisa para viver tranqüilamente. Para a filha Dalilia de Jesus Batista, 16, para ficar melhor só se tivesse mais festas e um lugar para a prática esportiva. “Os jovens daqui não têm o que fazer para se divertir. Se pelo menos tivesse jeito de praticar esporte”. Já para a estudante Sirleide Souza Aguiar, 10, o bairro está bom do jeito que está. A mãe dela, a dona de casa Maria de Lourdes Coutinho de Souza, 53, gosta mesmo é do sossego. “A violência passa longe daqui. A única coisa que me incomoda é o fato de que algumas pessoas escutam som muito alto e não respeitam os vizinhos. Mas tirando isso, não temos problemas”.

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