No lugar do despertador, o canto dos pássaros. Pelas ruas, vacas passeiam tranqüilamente. Quase não se vêem carros transitando pelo vilarejo. Para ir de um lugar a outro, o melhor é andar.
Afinal, o bairro inteiro tem apenas cinco ruas. De bicicleta, só as crianças animam. É um tal de sobe e desce que não termina. O que mais chama a atenção de quem chega ao povoado de Igaçaba, em Pedregulho, é a placa enorme bem na entrada que traz os dizeres “Bem-vindo a Igaçaba, terra de pessoas ilustres”. Quem não conhece a história do lugar, quer logo saber quem são elas.
Até as crianças têm a resposta na ponta da língua. “O Orestes Quércia e o jogador de futebol Wagner Lopes, que jogou até na seleção do Japão. Você não sabia?”, pergunta uma delas.
Mas e o que tem hoje em Igaçaba? Gente “ilustre” não falta. Tem a Isabel Rainha de Portugal. Ela tem 88 anos de vida e 20 de Igaçaba. Tem também o Lula, que mora na antiga casa da família dos Quércia. Quem? O gatinho da dona de casa Maria Aparecida Maragoni, 71, que já morou até em São Paulo, mas preferiu mudar para o vilarejo depois que se aposentou. É lá também onde vive o lavrador Paulo Moraes, 61, que diz ter “amigado” 19 vezes e enviuvado três. Outro filho de Igaçaba é o pescador João Carlos de Oliveira, 57, que vive da pesca apesar de não ter grandes rios próximos ao bairro. Para a população, Igaçaba não é apenas um vilarejo. “Apesar de pequeno, temos de tudo para viver bem. É como uma cidade”, disse Carlos Fernando Peracini, 49, que nunca saiu do bairro e hoje é representante da comunidade perante a Prefeitura. É dele a função de levar os problemas de quem mora no local até a administração.
HISTÓRIA
Igaçaba é um bairro rural de Pedregulho, está localizada a 7 quilômetros da Rodovia Cândido Portinari e a 14 quilômetros da cidade. Apesar de ter para mais de cem anos, o vilarejo tem pouco mais de 200 moradores. A cidade surgiu por conta da linha de ferro que ligava Pedregulho a Rifaina. No começo da década de 90, o trem voltou a rodar para transportar turistas. A estação passou por uma reforma completa para voltar a operar. A novidade logo passou e hoje a estrada de ferro está desativada e a estação abandonada. “Naquela época, muita gente vinha na nossa cidade. Foi uma pena o trem parar”, lamenta o representante dos moradores, Carlos Fernando.
Quem vive em Igaçaba não tem luxo, mas tudo de que precisa para viver com tranqüilidade. As ruas são asfaltadas e todas as casas têm água encanada, luz e coleta de esgoto. No bairro também funciona diariamente um Posto de Saúde e a população tem transporte gratuito para Pedregulho três vezes ao dia. As crianças até 4ª série estudam na escola do bairro, as demais são transportadas até Pedregulho. É da cidade que sai o padre responsável por celebrar a missa uma vez por mês na Capela de São Pedro. A igrejinha, que fica no meio do bairro, sempre lota.
TRABALHO
Para os moradores, a vida no bairro está boa como está. Para melhorar, só se houvesse mais emprego. Hoje, as opções são colheita de café e serviços gerais nas fazendas daquela região. Em razão da falta de trabalho, muitos jovens acabaram indo embora para Pedregulho e cidade vizinhas, como Franca. Os mais velhos preferem ficar por lá mesmo.
O povoado ainda conserva o jeitinho de roça. Basta olhar para os lados para ver vacas pastando e cafezais ao longe. E a natureza virou atração. O local é muito freqüentado por turistas que se aventuram na prática do rapel. As cachoeiras do Dudu e do Fuzil, com mais de 40 metros de altura, são as mais visitadas.
De tudo, para os moradores, o melhor em Igaçaba é o sossego e a segurança. São poucas as grades nas janelas e os portões altos. “Aqui posso deixar minha casa aberta e sair sem medo”, disse Paulo Moraes. Quem gosta de agitação, deve passar longe de Igaçaba. “Para viver aqui é preciso gostar de uma vida sossegada”, brinca Maria Aparecida.
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